segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Madrugada em claro

Só poderia render algum devaneio.

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Cadê a réplica? Da coisa, do sonho, do encanto e fadiga.
Quero a resposta. Que me incomoda, aflige, atinge, tinge e descansa no pensar.
Incômodo algum! Eu diria.
Perguntas. O que será, foi, fui, jaz. É.
Questão de tempo. Acanha, tormento, atormenta, engana e faz.
Pensar. O que quero, agora, não sabe e só.
Solidão. Escura, fria, vazio que ecoa.
O medo.
A verdade.
O momento.
Sorriso. Gargalha, alegria, sente.
O fim.
Fim.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cafecólotros anônimos

Vícios consumindo as horas, o dia, a própria vida por assim dizer. Tudo em excesso, já me disseram, faz mal à saúde – o que não deixa de ser uma verdade popular. Manter o equilíbrio tem papel fundamental no comportamento estável que assumimos, minuto sim, dia não. E maldito seja o vício! É maldito mesmo, mas dá para enganar o cérebro dizendo que faz bem e que é melhor assim. A dependência é perdoável, até compreensível se analisada bem. Age em benefício, ou pelo menos deve agir. Falo de um vício em específico. Já reparou como todo comunicador social (ou quase comunicador, meu caso) é viciado em cafeína? Mal da falta de tempo ou do acúmulo de funções em um mísero espaço de tempo talvez seja justificativa plausível. Produtividade. Fazendo mal ou não, quem é que resiste àquele cheirinho de café passado na hora? Ir ao shopping de vez em nunca e deixar de passar na livraria para consumir algo que contenha a tal bebida feita a partir dos grãozinhos torrados é voltar para casa com a sensação de que algo está faltando.
E o elixir nos acompanha em cada jornada. Logo cedo à mesa, mesmo que religiosamente você encha a sua caneca favorita, não há tempo para sentar-se: engole às pressas defronte a pia da cozinha mesmo, apreciando, ainda que ligeiramente, aquele sabor tão característico. Ah se o gosto fosse tão superior ao aroma. Ligada na 220 w, lembro-me do barulhinho que meu avô fazia ao terminar o cafezinho de meia em meia hora. Um estalo gostoso de ouvir, seguido de um “ah!”. Era o ritual que eu pude acompanhar de perto no decorrer da minha infância. Hoje a canequinha órfã repousa no armário da avó. A fiel companheira de porcelana ainda mantém as duas listrinhas azuis ao redor. No fundo só restou a mancha amarelada, resquícios do excesso de café, e as boas recordações que o avô deixou.
Vem à mente, ainda no mesmo instante, a cidadezinha que morava. E, Drummond que me perdoe, mas algo mais interessante que a pedra ficava no meio do caminho do sítio até o centro: uma torrefação de café. E, novamente o olfato ganhou minha atenção; Ninguém pode com café torrado, ninguém. A estrada para Maringá também acende outra lembrança: chegar à casa da outra avó com o mesmo olfato aguçado: torrando café no quintal, num latão de tinta improvisado e o torrador comprado na feira. Minha tarefa já estava determinada: moeria o café, com toda a força que meus bracinhos haveriam de ter, e faria com muito gosto! Afinal, a atividade era recompensada com aquele pão caseiro e o café feito na hora – e, quem diria, eu mesma tinha moído as sementinhas de cor marrom escuro. A típica família da margarina Qualy.
A bebida indispensável é um hábito que vem se desenvolvendo pelas terras tupiniquins (e ainda acho que a contribuição dos comunicadores conta muito nesses dados). Segundo estatísticas da Abic (Associação Brasileira de Indústria de Café), a média per capta é de 78 litros de café consumidos por brasileiros ao ano. Quanto você já contribuiu este ano? Eu já perdi as contas - se é que já tive paciência para fazê-las. Engraçado como a “droga” também (re) acende tantas lembranças. A mania de se abastecer do combustível para funcionar em meio às terras tropicais é de longa data. De origem etíope, o consumo do líquido se popularizou de tal forma, que impregnou qualquer ser humano a fim de aumentar os níveis de produção. Ou mesmo degustarem sabor tão singular.
Solúvel, descafeinado, espresso, instantâneo, orgânicos, kopi luwak, tradicional. Em excesso. Vai do gosto de quem se arrisca, bem como disse, vícios não são bons.
E vou deixando o anonimato por aqui, que a chaleira indica que a água está fervendo. Viciada, eu? Quem diria!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Um sonho, uma colcha de retalhos, um dia

É um sonho – disse-lhe de sobressalto – só poderia ser. Eis a visão do sonho, o vislumbre de meus dias, querendo esquecer o que tinha ali, cravado à terra roxa. A idade já ultrapassara as brincadeiras, embora os bilhetes infindáveis procedessem no decorrer das aulas. Assuntos inaptos para a discussão à frente da lousa. Era cansativo ter de frequentar a rotina. Passou-me pela cabeça que seria um bom nome de chiclete. Ro-ti-na. Doce no início e, com o tempo, vai perdendo o sabor. Quando se tenta livrar da forma errônea, acaba por grudar. Pegar no pé. Era realmente uma fuga daquilo tudo.

A oportunidade dos sonhos, quem sabe. Acionou o maçarico. Só sabia seu primeiro nome e nada mais me importava. Deixei de avisar a família, para evitar preocupações – afinal, a fuga era temporária. Começamos a subir. Atentei às pessoas que possivelmente teriam torcicolo se continuassem a olhar para o céu. Sorri de canto de boca. Eram pequenas agora. Não que eu fosse grande, mas a distância me confortou de maneira inexplicável. Separados pela altura, que mais haveria de ser?

Levantei os olhos, o piloto acendia um cigarro. Olhei para os lados, estávamos adentrando um agosto de muita seca. O clima se refletia na imagem mal formada da cidade, imponente e bem dividida. Posta como toalha de mesa, remendada nas combinações de quadras e blocos de edifícios. Ao longe, um lago – agora trancafiado, fazia bem alguns meses. Ouvi dizer que era para reforma. Libertaram os animais enjaulados, removeram os visitantes e este – ah! Ficou só. Cintilava, ao longe, a formação do sol irradiando a poeira que pairava no ar. Mal conseguia respirar, dado à umidade baixa, ao fogo que aquecia minha cabeça de minuto a minuto. Busquei não me importar. Era um sonho.

O cartão postal direcionava o olhar de qualquer cidadão, nascido nesta terra ou algum aventureiro. Embora no interior, ainda é a terceira maior cidade do Estado. Não deixava de ser: interior, repleto de pessoas com a cabeça pequena. Tal qual a cidade onde morei. Será que a visão seria assim? Algumas casinhas e, então, o verde inundaria. Voltei para o cesto que me carregava. Quando imaginei que flutuaria dentro de um cesto? O piloto acendeu outro cigarro – acredita que tem gente que se espanta? “Como assim você fuma dentro do balão?” – ri, ao olhar o que nos rodeava: quatro botijões de gás, combustível suficiente para manter nossos sonhos no alto. Ergui o queixo, o maçarico inflamava nossos rostos. Que mal haveria de fazer um cigarro? A cabeça encolhida não pertencia somente aos pés vermelhos. Não soube decifrar o incômodo em descobrir tal sina, mas continuei a apreciar a vista.

Os sonhos certamente estão no alto. Olhar para baixo é ter certeza de que o que ficou abaixo pertence a outra história. De um lado, a urbanização invadindo um espaço que, embora o olhar limitado da terra não identifique, ainda dominava. Enormes tapetes verdes rastejavam até o horizonte, delineado por tímidas elevações terrestres. Montanhas. E a imensidão azul-amarelada era só minha. O pôr-do-sol respingado por pontos coloridos no céu. Nas ruas, pequenas formiguinhas apontavam o sonho acima das cabeças.

Minha companhia de cesto avisou que era hora de descer. Recolhi meus pensamentos e guardei-os na bolsa, junto à cintura. Quicamos em um terreno desconhecido. Era uma plantação solitária, tal qual a lagoa do parque, não fora os visitantes inesperados. Entre pés de aveia e cavalos correndo - assustados com o barulho facilmente identificável - crianças tapavam a boca e soltavam gritinhos de alegria. Seria possível? Tão perto? Corriam ao encontro daqueles que desciam do céu.

- Dá medo? Como é lá em cima?
- De onde vocês são? – arrisquei.

O maior deles apontou para baixo, na direção que o fim do dia seguia. Um barraco montado no fundo de um vale anunciava a noite com a luz de fora já acesa.
- Nós seguimos vocês! Posso sentar aqui?
O piloto consentiu, ainda que desconfortável, a presença empoleirada de cinco garotos ao redor do cesto. Cinco formiguinhas lá do alto. Cinco persistências em seguir o sonho aqui de baixo. O sonho tão distante, que para a alegria dos irmãos, veio pousar no próprio quintal. Seis sonhos realizados por um dia.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Nada é tão ruim que os argentinos não possam piorar

""Maradona analisa possibilidade de treinar time no Brasil, diz escudeiro de técnico". Desligado oficialmente do comando da seleção argentina, Diego Maradona pode até continuar sua até agora curta carreira de treinador no futebol brasileiro. Isso é o que diz seu fiel escudeiro e auxiliar técnico, o ex-jogador Alejandro Mancuso."
Folha Online – publicado em 29 de julho de 2010, atualizado às 7h03

Aturdido, não conseguia engolir que o tricolor tomou de um a zero. Apoiei os cotovelos nos joelhos, segurei a cabeça – visivelmente decepcionado. Fitei o chão cor de tabaco, ainda exalava a produto de limpeza. Vislumbrei um fragmento do dia seguinte, a caça aos bambis certamente estaria no ápice da descontração alheia. Respirei fundo. Os caras no trabalho com certeza pegariam pesado. Já tinha recebido mensagem no celular avisando “dá-lhe Inter!” e fingi estar sem créditos para responder.
Seria prudente inventar alguma desculpa. Alguma doença grave – era válido, ao menos evitaria aborrecimentos. Quiçá, salvaria até mesmo meu emprego. Maldita hora em que fui trabalhar para um corintiano.
Entre um plano mirabolante e outro, reconheci a música do jornal. Era o último telejornal da noite, e eu torcia para que em momento algum fosse mencionado o “caso do goleiro Bruno”, ou seria obrigado a desligar a TV. Eu tinha de tirar da cabeça os erros de gramado – estava decidido. Concentrei toda a atenção no apanhado de notícias que a Christiane Pelajo prontamente anunciaria.
Ah, mas se arrependimento matasse... Mick Jagger teria torcido pela Alemanha nas quartas de finais ou eu teria ido dormir mais cedo. A reação, quase que instantânea, foi de incredibilidade. “Diego Maradona assume posto de técnico da Seleção Brasileira”. Diego Maradona. Ma-ra-do-na. Não podia ser verdade, deve ter dinheiro por trás disso! Explicação lógica para um fato sem nexo algum. Ver aquele barbudo faceiro acenando, como se tivesse ganhado na mega-sena, bastou para que a frustração de 2014 se consolidasse.
O apito ao final do jogo soou. Estava encerrado, era hexa. Finalmente o hexa! Sob os cuidados daquele que por baixo da camisa verde e amarela tinha impregnado na pele a cor azul e branca. Frustrado como qualquer patriota de época, ouvi atentamente o apito, que não parava de tocar. Barulho mais insuportável que a própria vuvuzela. Parecia até mesmo o meu...
Abri os olhos, a claridade invadia o quarto. O ruído ensurdecedor tremia o criado-mudo e acordava o restante da vizinhança. Bati a mão com força para desligar o despertador, fazendo um estardalhaço ao derrubá-lo no chão. As pilhas foram inescrupulosamente arremessadas para debaixo da cama, obrigando-me a percorrer o mesmo caminho, engatinhando, à procura do relógio, que pairou sobre um jornal da semana anterior. “Mano Menezes assume a Seleção Brasileira”, era a chamada de capa.
Esfreguei os olhos, encarei novamente a página de esportes. Foi o suficiente para que a derrota da noite passada nem tivesse existido. Aliviado, fui passar um café antes de começar mais um dia de trabalho. Enquanto o aroma característico imbuía a cozinha, liguei a televisão.
“Pesquisa Ibope aponta Dilma com 39% e Serra com 34%”. Aninhei a caneca com o café novo por entre os dedos, levando o líquido à boca calmamente. Levantei-me, deixando a louça na pia, desliguei a TV. Bati a porta, encarei a rua, lembrando da última notícia que ouvira. E o dia mal havia começado...