terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Reviravolta


Ainda é totalmente dono da tua própria razão, a mesma que me arranca gotas salgadas da entrada para o meu mundo. Toda noite é igual, depois das mesmas conversas que me remetem ao que eu canso de omitir para mim mesma. Sei que toda glória e diversão ficam a par da nossa situação. O que nos tornamos? Escravos do próprio orgulho.
E eu me pergunto, antes de fechar os olhos – O que você quer de mim? – e a pergunta ecoa pelos pensamentos, até que outra noite de insônia se aproxima. Mas até pegar no sono, é a perturbação que me inquieta.
E as contradições racionais e emocionais entram em combate a cada frase completa. O ódio que eu deveria nutrir transfigura-se em algo mais forte do que eu possa suportar. Tentando pensar no mal que me faz, chegando à conclusão de que a dor é mínima. Concluindo, acima de tudo, que todo esforço contrai-se em um erro impagável, a um risco imprudente, que insisto em correr, que insisto em cometer.
Não adianta escachar aquilo que é legível em teu semblante – eu não desistiria, não agora. Sempre questiono quando o fim chegará, embora eu sempre adie a data por receio do que há de vir. Não é bom, o que minha previsão incide. Eu sempre soube, desde o início. Mesmo teimosa, mesmo insistente, de noite, de dia – já basta passar pelos transtornos tão irreais.
De olhos fechados mantenho minha postura inicial, finjo não ver, quando tudo está tão nítido. Finjo não sentir, quando nada mais cabe em meu peito. Finjo acreditar, que cada palavra tua será comprometida com a lealdade. Finjo ser quem eu gostaria de ser. E no fim só me resta o erro fatal de fingir que ainda há caminho a se percorrer.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Misantropia

E então ela compreendeu, naquele lapso de ânsia momentânea, que toda a raiva tinha fundamento. Percebeu que as sombras existentes na falta de iluminação serviam como aviso prévio da lama a qual foi arremessada. A mesma que agora afundava, lentamente, sem a esperança de um socorro.
A angústia calava o sofrimento, mas não encerrava suas lágrimas. A pontada no peito era superior às melhores lembranças guardadas cuidadosamente na caixa da memória. A decepção corria pelas veias no zumbido de fórmula um, e era um sentimento incurável. O mal de toda a humanidade, afora a preguiça a qual ela acreditava piamente agora se chamava traição – das piores. Não era um tema de novela que a mocinha pega o namorado com a melhor amiga. Era imensamente pior.
A falta de fala fez vítima dois reles mortais, buscando na integridade física manter a postura que tinham desenvolvido por tanto tempo: ela, centrada, sensata e responsável. Enquanto ele, no auge dos dez anos mentais, horrorizava qualquer criança de tal idade com comportamento tão inócuo.
Já era tarde, e o assunto prosseguia progressivamente para o lado ruim. Ela tinha prometido para si mesma manter a calma e respirar fundo, já tinha passado aquela situação havia tempo. Mas ela mal soube responder por que havia ressuscitado tantos sentimentos de uma só vez. Ele, como era de se esperar, mal soube responder à gravidade que provinha de suas próprias mãos. “Você está certa”, foi a única coisa que pode afirmar com sensatez. De resto, ela fechava os olhos para não ter de presenciar. Não existia desculpa à altura, não era digno.
Omitir o que a fazia sangrar a todo custo não era cumprir papel de irmão. A lealdade extinta, o sofrimento a mostra. Ele sabia muito bem, desde o início, que omitir os fatos não os alterava, mas conduzir as informações para o caminho sem se comprometer com alguma parte era um mínimo realizável. Se o mal da humanidade, ou a falta de coragem fizeram a cabeça do garoto, ela não saberia dizer. Ela que o vira crescer, e acreditava na moralidade da falta de discurso do próprio irmão.
Em pratos limpos, mesmo que a história já esteja no passado, é memorável, para não dizer gravada à ferro e fogo na própria pele. O couro cozinhando não era o dele, o buraco que não se podia estancar o sangue do lado esquerdo do peito também não o pertencia. Aquele futuro a qual ele submeteu-se a brincar não faria parte de sua história vivenciada, apenas lembranças de algo não feito.
Somente palavras eram o suficiente, mas nem estas foram proferidas. Somente bom senso faria a diferença, mas este não se fez presente. Somente reviver a história em outro personagem a faria esquecer tudo o que tinha passado, mas isso não viria a acontecer.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Utopia


Os verbetes calculados para conquistar quem estiver disponível. As palavras doces proferidas por um silvo carregado do pior veneno. Aquele que deveria dilatar os vasos sanguíneos, fazer tudo acontecer mais depressa. Perder o ar, a razão, a fala – e então, não. Nada disso aconteceu. Era cansaço da menina de tanto ouvir a mesma ladainha, que chegou ao ponto de crer na instabilidade moral de qualquer cidadão do sexo oposto. Era uma revolta que a consumia cada vez mais. E por conta, ela sentia mais falta da inocência que lhe fora arrancada de forma brutal. A crença na sinceridade forjada talvez evitasse que o raciocínio concluísse e identificasse a ênfase da mentira ali estagnada.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Segredo

Sete dias depois da virada do ano, e eu ainda tenho a cara de pau de aparecer por aqui. Espero que vocês tenham aproveitado aquele ritual de ano novo, que após 12 meses se repete, sempre. A casa cheia, os parentes, o chester no forno fazendo aquele típico aroma infestar toda a casa. Crianças gritando. O barulho de fogos de artíficio, a contagem regressiva na Globo. Tudo isso faz parte.
E também faz parte do meu bom senso postar algum texto novo aqui. Embora alguns engavetados do ano anterior ainda sejam postáveis, queria começar com algo escrito em 2010. Um texto que cabe como um desafio, mas acho que consegui fazê-lo. Ao menos o personagem ficou satisfeito com o resultado, então espero que tenham o mesmo aproveitamento.
O que ando ouvindo? Michael Bublé - recomendadíssimo.
E aí vai o nascer e padecer das figuras em cena:
Já o tinha visto tantas outras vezes perdido por aí. Não tinha nem como não ver, a cidade pequena do jeito que é. Com aquela voz imponente e jeito de durão, não tinha como não reparar. Mas era só. Até bela tarde, quando amigos em comum nos apresentaram.
- Sofia.
- Felipe, prazer!
É eu não tinha fantasiado. A voz era, realmente, muito singular. Saímos todos juntos, para um canto qualquer, passar o tempo. Eu era a única motorizada, e então, penalizada a dar carona para todos os marmanjos a bordo. Ele foi o último.
- Tirei carteira esses dias – falou.
- Ah é? – perguntei educadamente.
- Meu pai não deixa pegar o carro ainda, mas que droga! – e soltou uma risada de filme de terror. Inigualável.
- Quer dirigir? – indaguei - Adoro correr perigo!
O que ele tinha mesmo a perder? Minha vida não valeria muito. Trocamos de lugar, e passei a observá-lo na direção. Não tinha reparado como era bonito. Tal qual a voz, beleza única. Cabelos louros espalhafatosos, o olhar esperto, querendo dizer algo. Talvez a resposta estivesse dentro dos meus olhos, mas preferi passar o tempo conversando. Apesar da falta de humildade, ainda tínhamos a conversa que fluía.
Depois das voltas e voltas no centro, deixei-o e fui para casa, pensando naquela figura rara da tarde de sábado. Mas será? Quando o veria outra vez? A pergunta logo esgotaria o prazo de validade. Não demorou tanto assim para nos vermos de novo. Um mesmo sábado veio para nos trazer o que chamávamos de jogar conversa fora: saímos todos juntos de novo para encher a cara.
Eu não bebia tanto, mas minha diversão impagável era assistir aos meninos ficarem tortos. Eles precisariam de uma motorista mais tarde, por isso não abusava. E mesmo sem querer, me perguntava se o Felipe apareceria. Resposta que trouxe de brinde a presença dele. A atração substituía qualquer razão em mente, se era efeito do álcool, ou não, me inebriava com a aparência daquele rapaz. Impossível ter só 18 anos!
Mesmo sentado do outro lado da mesa, a troca de olhares era inevitável. Mas que diabos! Eu não cansava de olhar! E era inteligente também, apesar de nos conhecermos a tão pouco tempo, se mostrou bem superior intelectualmente. Mas não parecia o tipo que tomaria alguma atitude, alto como já estava. Ria de tudo. Falava de política, de literatura. Sentia que precisava fazer algo, e rápido. Afinal, os ponteiros no relógio corriam para a despedida.
- Ei, vou pegar o carro e estacionar mais perto. Vamos comigo? – arrisquei.
Mal terminei de concluir a frase, ele já estava posto ao meu lado. Fomos andando até dobrar a outra esquina, onde o meu automóvel se encontrava. Estava tremendo sem perceber. Seria o tom da voz? Que medo! Aconteceu rápido demais para minha percepção, quando vi, já estava em seus braços. O braço segurando firme minha cintura, a mão segurando minha cabeça, enquanto eu bagunçava ainda mais aqueles fios dourados. A natureza humana se manifestava na garagem escura a qual estávamos rentes à parede. Suas mãos seguraram-na firmemente, como se fosse cair sobre nós. Arquejei, me faltava o ar e palavras para explicar o que acontecera. Minha vontade era permanecer naquele abraço final, naquele momento de impulso, de ação sem princípios. Selei nosso segredo com um último beijo, e seguimos em frente.
Olhávamo-nos e sorríamos. Era vontade mútua? Eu tinha criado uma oportunidade, então? Quando chegamos à mesa, apesar de todos estarem em outra dimensão, questionaram – “Que é isso na sua boca, Sofia?” – toquei de leve com a ponta dos dedos, e reconheci a tonalidade mórbida – sangue! Sorri meio de lado, sem jeito, e sequei o ferimento com um guardanapo – típicos de botequim, aqueles que não absorvem nada. Se sugassem meu constrangimento, talvez fosse melhor. Dei conta de parar o sangue.
Encarei o causador do machucado. Ele sorria, com aquele mesmo sorriso encantador, seguido de uma risada diabólica. Esperava que isso significasse um machucado externo, não queria me envolver ao ponto de abrir um ferimento no meio do peito. Era tarde já, resolvemos partir. Dessa vez ele foi o primeiro. Em casa novamente, deitei na cama fitando o teto. Repassei a cena, várias e várias vezes, até compreender como chegamos até aquela porta de garagem. E agora, na dúvida, sonhava: Vou vê-lo outra vez?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Edifício 366


Ele falava repetidamente ao telefone como se esperasse algum fio de assunto, perguntar qualquer coisa. Eu, que tinha ligado somente para ouvir aquela voz, perguntar como havia sido o dia, mas principalmente, deleitar-me com aquele timbre tão imitado por meus amigos. É eles sabiam bem, que apesar de enfezada, eu gostava de ouvir até mesmo a réplica daquela voz. Era suave, e eu cá imaginando a expressão que ele fazia a cada sílaba mencionada.
- Huhum, ahhh...
Era a brecha para mais falatório. Como é que conseguia? Tão íntegro, inteligente, tão centrado.
- Porque você sabe, se tiver que acontecer alguma coisa, eu ir embora... Vai ser você.
Acordei daquele sono doentio. O que ele havia dito?
- Han?
- Caso eu tenha de ir embora, sabe? A gente nunca sabe.

- Mas...
- E eu queria que você cuidasse de tudo por aqui.
- Isso é uma afirmação ou uma suposição, afinal?
- É uma suposição, óbvio, mas quem é que pode interpretar o futuro, não é?
A voz que antes acariciava os tímpanos passou a agir como agulhas infiltrando o meu cérebro. O ritmo cada vez mais aguçado da repetição de todas aquelas falas. Será? Bem que suspeitava, logo que entrei na vida dele, que isso outrora aconteceria. Mas já? Tão cedo? Era só um ano que pude acompanhá-lo de perto. Tantas oportunidades, tanto a admirar, como por um ponto final assim, logo no fim do ano?
- Belo presente de natal!
- Não seja irônica comigo, Ana. Você sabia que isso poderia acontecer.
- Mas precisava ser tão logo?
- Eu não imaginava que fosse conhecê-la, não estava em meus planos.
- E não está mais, não é?
Alguns minutos se passaram, o eco de nossas respirações foi retraído por um choro sutil. Mas que droga! Eu não poderia ser fraca, não agora! Juro ter ouvido um engolir grosso antes da próxima fala.
- Eu te levaria comigo se pudesse, você sabe disso. Não chora.
- Chorar te faz ficar com peso na consciência? Parabéns, sentimentalismo nunca foi seu forte!
- Descontar a raiva em mim agora não vai ajudar em nada... Você sabe, eu vou voltar.
- É a promessa de todos, não é?

- Eu preciso de um futuro, um trabalho.
- E o nosso futuro não conta?
- Ele vai ficar para onde eu vou agora: para o futuro.
- Ah, passe bem!
Desliguei o telefone. Estava atônita. Se eu não pudesse partir com ele, partiria de qualquer maneira. Corri pelo corredor do prédio apertando os botões do elevador. Não funcionavam, acho que estavam em manutenção. Nada daria certo a partir de agora, eu previa. Abri a pesada porta da escadaria. Eram oito andares ao todo. Forjaria um tropeço e então o guardaria na memória como o bom rapaz que sempre fora. Sentei. Não poderia fazer isso com ele, as consequências causadas nele seriam corrosivas. Estragaria os planos. Eu não conseguia mais conciliar o choro e a tentativa de tê-lo novamente. O telefone começava a vibrar no meu bolso. Ele. Não atendi, não queria que testemunhasse o meu fracasso.

Uma parte de mim dizia para voltar para casa, me afogar em lágrimas ao travesseiro, assistir uma comédia romântica e chorar mais ainda. A outra parte em contrapartida queria vingança, queria que ele ficasse mal. Mas eu não era assim, eu não partilharia minha dor de tal forma, afinal, ele voltaria, não é mesmo? São Paulo não poderia ser tão longe, não poderia nos impedir. O telefone tocando novamente, insistência. Acho que ele realmente está preocupado. Pensasse nisso antes. Para Ana! Não é assim que as coisas funcionam! Atenda. Se você o fizer, será tão fraca quanto fora quando o perdeu para um emprego longe daqui. Mas é o melhor para vocês. Não, não é.
O conflito dentro da mente não acabaria nunca? Eu precisava por um basta nisso tudo, sempre achei que tinha uma dupla personalidade escondida por trás de minhas escolhas mais insanas. Olhei para o relógio do aparelho celular, uma SMS tinha acabado de chegar, e essa eu teria de abrir. “Ana, por favor, fique bem ok? Não seja imprudente consigo mesma. Sabe o quanto é importante para mim.”. Eu já tinha es
quecido os oito andares de escada abaixo. Agora subia os dois últimos para atingir a cobertura do prédio. Ventava, estava frio, era exatamente 19h50 de uma sexta-feira com horário de verão sendo oprimido por nuvens escuras. Olhei para cima, as gotas tímidas engrossavam e pesavam no meu cabelo. Cheguei até a beirada do edifício e olhei para baixo. Não doeria tanto quanto ele fez doer em mim, certo? Os carros passando, as pessoas fugindo da chuva. Buzinas, pombas se embolando nos galhos das árvores, cada mundinho particular perpetuado aos meus olhos, minha última visão.
Lembrei de quando nos conhecemos, ao acaso, na sala de aula. Fora tirar uma dúvida com a professora e eu de cara já me encantei. Não era nem nunca foi o tipo que agradava minhas amigas, elas que preferiam músculos ao cérebro. Mas desde então, ternura, paciência e compreensão foram fatores fundamentais para crescer o que já havia plantado naquela coincidentemente sexta-feira. E agora aqui, sem ele e com a esperança de extorquir o lamurio das minhas preces de que ele voltaria, atrasava cada vez mais a minha despedida. Cansada de esperar por mim mesma, fiquei de pé diante da cidade. Eram dez andares, sei que edifícios maiores dominavam, sei também que no dia seguinte eu não apareceria em jornais, não era comum denunciarem suicídios. Mas serei eternamente a capa que ilustrará a vida dele, e para mim era o suficiente. Egoísta! Menina egoísta! Não faça isso.
Um passo, os olhos fechados. Adeus.
- Não, Ana! Ana!
Olhei para trás assustada. Então ele veio? Eu mal podia acreditar! Chorava de alegria, o riso misturando-se à chuva, às lágrimas, ao alívio. Tremia. Desequilibrei uma perna já no ar. Queria voltar, mas ao instante que olhava para cima, vendo as janelas e as sacadas passando por mim, vendo a chuva descer da nascente mãe-nuvem. Idiota! Agora sim o perdeu para sempre. Eu não queria, sabia bem, eu não queria. Ainda via o rosto dele desesperado lá de cima, minha hora estava chegando. O baque nas minhas costas não doeria tanto quanto perdê-lo novamente. E foi assim que o fiz.