domingo, 9 de agosto de 2009

Vou de táxi...

Era mal daqueles jogos que eu teimava em acompanhar, dizia minha mãe.
- Menina, você sempre volta doente depois desse futebol!
Talvez fosse verdade, ou só uma de tantas outras coincidências, afinal, eu nem sequer jogava. Que dirá gritar em tom de torcida animada. Acompanho nem eu sei por que, mas eu estava lá. E a doença cá.
Agora, aqui, com um vírus instalando-se e movendo a temperatura do corpo para um calor incomum. Foi o que disse um amigo que forjava a medicina. As coisas giravam, embora o corpo quente, eu ainda sentia frio. Doía até o osso, os calafrios começaram a me consumir. Resolvi aconselhada pela desistência, que estar em casa na companhia de um edredom e uma xícara de chá seriam a solução apta para uma pseudo doença. Eu não aguentava mais ficar ali, e isso eu sabia muito bem.
Entreguei meu trabalho digitado, sobre uma história infantil que eu tinha achado, embora inteligente, desnecessária para o andamento da aula que mal existia. Era uma daquelas horas em que você não absorve absolutamente nada do que lhe é passado. Pelo menos eu me sentia assim. Juntei meu material, sai da sala e liguei para um táxi vir me buscar – ah, terrível não ter um carro na mão. Ta achando ruim? Nem idade pra dirigir eu tinha. Depois de uma breve discussão para decidir o portão de embarque, caminhei até o meu destino. Portão um.
Fiquei escorada na grade em frente à rádio por uns vinte minutos, e nenhum sinal da minha carona. Liguei para confirmar o envio do automóvel. A voz do telefonista era tão similar àquela que eu daria tudo para ouvir naquele instante, que a semelhança bastou para aliviar minha raiva diante da demora. Paciente, aguardei. Não demorou tanto, apareceu. Carro branco, dizeres em letras azuis destacaram-se. Entrei,
- Boa noite – cumprimentei o motorista.
- Boa noite, me desculpe pela demora! – respondeu o condutor.
- Que isso... – foi o que consegui dizer, então.
- Pra onde?
- Martin Afonso, três meia cinco, por favor.
- Sabe o melhor caminho para se chegar lá?
Pensei um pouco, ele é taxista, deveria saber por onde ir, não deveria?
- Não, não faço idéia – disse.
- Sabe pelo menos onde é o lugar?
Era minha casa, eu provavelmente deveria saber para onde estava indo. A febre fez sobressair a razão? Ainda não, espero.
- Sei sim.
Fiquei olhando para fora, os universitários em suas devidas aulas após intervalos tão apressados em passar. As luzes da cidade cintilando, era tudo tão bonito. Eu adorava minha cidade, ah, como gostava! Passar de ônibus frente à igreja cartão postal era uma das minhas cenas favoritas durante a semana. Fui prestar atenção na música ao fundo, nem tinha notado o rádio ligado. Com absoluta certeza eu diria “Abba!”, se não fosse a cópia feita por aquela artista loira, tão consagrada rainha do pop. Só o comecinho, mas foi o suficiente. Era uma de tantas outras músicas do Abba que eu gostava – ora, como eu tinha facilidade em gostar. Do que não gostava? Difícil dizer. Fui ouvindo, e para variar, meus pensamentos fluindo, moldando textos em minha mente, que infelizmente perderam-se meio aos outros pensares que substituíram a ideia em foco.
Estava acontecendo exatamente isso. Os focos mudando. Eu e minha lentidão, sempre caminhando abraçadas, nem prevíamos isso. Só notei quando o meio caminho simplesmente foi percorrido.
- Opa! Esqueci de ligar o taxímetro! – a observação emergiu daquele silêncio tão reconfortante.
- Haha, desconto então? – arrisquei.
- É, desconto pro cliente!
- Como funciona um taxímetro? – porque é que eu nunca conseguia ficar quieta? Não era hora de a minha timidez sair a passear.
- Funciona com base nos quilômetros rodados e na velocidade.
Quilômetros e velocidade? Mas não daria na mesma? Eu teria que pagar tudo no final, de qualquer forma.
E as luzes passavam, ao piscar de meus olhos semicerrados. O calor ainda domava minha mente, as ideias ardiam. Cheguei ao ponto tão almejado. De partida, de saída, de recordar. Desci, arrastei-me por três andares de escada, assustei minha mãe por chegar mais cedo. Despi aquela vestimenta carregada, ainda insistia em me fantasiar de mendiga quando chegava ao lar doce lar – era confortável ao menos. Doses e mais doses de remédio, sabia que nenhum faria efeito. A doença era da alma, não do corpo – que mal parava de pé. Abri a janela, fitei o céu por alguns instantes. Doce brisa. Desabei encarando o teto, com a música do táxi em mente, fazendo filmes e mais filmes se repetirem diante de mim. Fechei os olhos.
Não existia mais calor em excesso, janela, música ou teto. Jamais existiu.

2 comentários:

  1. gosto dos teus textos :)

    aham cláudia, senta lá.

    (só pra não perder a oportunidade...)

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