quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Esquecido num bloquinho

Ela: Tô pensando que esse mundo é muito louco. Vamos pro bar? Não vai ter aula hoje.

Ele: Louco? Imagina! Tome como exemplo nós dois. Que em determinado momento sorrimos como se não houvesse tristeza, em outros momentos nos lamentamos um para o outro e em poucos, mas significativos momentos, choramos. Vamos sim.

Ela: É, tanta gente já habitou meu coração... Estamos calejados. Agora eu não sofro por preguiça. Cansei. Queria que me acontecesse algo que mudasse o rumo da minha vida.

Ele: Queria que esse algo, tanto na minha como na sua vida, fosse tão importante que criasse uma felicidade tão impermeável como a nossa amizade. Já estou cansado de hoje sorrir e amanhã querer chorar.

Ela: A gente e essa nossa mania de seguir em frente. Sorri. Chora. Levanta e caminha. Sangra. Mas continua. Isso é vida? Coloquei na cabeça: eu o amo? Amo, muito. Mas eu me amo primeiro.

Ele: Na verdade, não sei porque, mas acho que esse amor é apenas transferência do ego que temos e não queremos aceitar, e por isso, dizemos ser apenas e unicamente destinado ao outro.

Ela: Ele não me ama como eu gostaria que amasse. Isso não significa que não ame. Mas eu não me contento com pouco. Eu mereço mais que migalhas.

Ele: Na verdade o que sentimos é tão grande que queremos que a outra pessoa tenha o mesmo sentimento e com as mesmas dimensões, mas às vezes o que ela tem para dar não é o suficiente. Essa pessoa precisa ter atitudes que comprovem o merecimento de tamanhos sentimentos. É verdade. Vamos para o bar? Vamos!

[E foram, simplesmente]

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Aleatoriedades e U2

Quanto tempo demoraria mais? Pressa. Pressa. Me tira daqui? Não agüento mais ficar aqui.
Quem manda nisso sou eu, sente-se.
É um jogo, alguém deveria mandar nisso? Isso é uma armadilha. Uma arapuca para pegar codorna.
O que é isso que escorre da sua boca? Mel? E o seu cabelo? Meio comprido.
Essa barba por fazer. Cante. Me encante, por favor. Eu cansei. Você me tiraria daqui?
Olhe através do vidro, o que você vê? Me vê? Eu consigo acompanhar cada detalhe tímido. Abra sua boca, seus dentes brancos e levemente tortos. São lindos.
Sorria. Sorria, e isso basta. Para mim é o suficiente. Por favor, não pare de sorrir.

Me faça gargalhar. Cante. Você cantaria? Não pare de cantar.

Você existe.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Nomeia

Falta de
sono
Dúvida
O que era?

Pensava
Me diz? Responda!
O que és?
Sentimento
Tens nome?
Não sei
Pode me nomear?
Se eu der nome...
O quê?
Posso me apegar
E daí?
Depois você vai embora
E só de lembranças
Não é possível
Simplesmente
Continuar

Dicionário
Paixão
Intensidade
Atração, interesse
Entusiasmo
Perturbação
És meu preferido

Mas não é
Isso não significa
Mais
Mais
Mais
Adição
Intensidade
Coração?

Aproxima
Protege
Afeiçoa-se

Não! Pare!
Não se aproxime

Ou
Pode ser tarde
Para nós
Demais
É tarde

Amor
Suavidade
Delicadeza
Dedicação
A quem quer agradar
Agradável

Afinidade acontece
Sentimento
Quer saber?
Pouco importa

Você tem nome?
Se eu tenho nome?
Pouco importa
Que nome tens?

sábado, 3 de setembro de 2011

Um sábado qualquer

- Que cheiro de fome
- Vamos almoçar
- O seu pai vem pro almoço?
- Tô com vontade de comer frango
- Vamos voltar pra casa
- Vamos comprar um frango?
- Que tal comprarmos uma torta para comemorar?
- Boa ideia!
- Mas eu ainda quero o frango...
- Ah, mas a torta é mais gostosa
- É doce. Eu quero frango. Vamos comer frango.
- Estaciona o carro aqui na faixa mesmo que eu desço rápido
- Cuidado pra atravessar a rua, hein?

PÉÉÉÉÉÉÉÉ – ÔLOCO MEU!

- Isso realmente tinha que acontecer? No dia do seu aniversário?
- Foi por pouco
- Eu tô tremendo até agora.
- Motociclista filho da puta!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Era inexistente

O sentimento inexistia, contrapondo a vontade evidente. Tilintava as garrafas em brindes e brindes e só uma coisa desejava. Chegou. As músicas eram bregas o suficiente, exatamente como gostava. Lançou-lhe um olhar. De leve. Abraçou-o e aceitou a bebida que oferecera. Goles e mais goles de esquecimento, o pensamento já vagava distante dali. O papo fluía vez ou outra. Encontros e desencontros com estranhos e reconhecíveis misturados no ambiente fracamente iluminado. Saiu. Sentiu-se seguida. A sombra, os passos diferenciados das notas musicais insistentes aos dançarinos ousados na pista. Tomou mais um gole. Hesitou à porta, evitando a área de fumantes. Virou o copo. Pensou em voltar ao bar e buscar mais uma long neck, mas aguardou. Sabia que a sombra tinha nome. Nome, sobrenome e intenções.

Puxou-lhe pela cintura, fazendo às escuras o que não era permitido fazer frente aos olhares curiosos. De conhecidos. Intrometidos. Entre sussurros, confissões aos ouvidos, já não se importavam mais com a escadaria molhada, com a precipitação atmosférica. Só era possível ouvir a respiração de ambos. Sentia-se a garoa aderindo à pele, aos suspiros e às juras que valeriam somente àquela noite.

- A gente se uniu muito rápido. Como você explica isso?

- Alguma sugestão? – perguntou-lhe ao pé do ouvido – Destino?

O tempo de cinderela estava ao fim. As juras ficaram atadas ao vidro embaçado, ao soar da última canção. Olhou fixamente os olhos miúdos, prevendo o que escreveria a respeito daquele sorriso. E as covinhas? O charme infantil que mais gostava. Segurou-lhe o rosto com as duas mãos, prometendo sair dali como uma desconhecida. Prometendo a si mesma que jamais esqueceria. Calou-se. Fixou os olhos e selou o compromisso com um último beijo.

Voltou à realidade, sabendo que era impossível. E o impossível se desfez. A carruagem agora era abóbora, travando significado com a noite de halloween. A madrugada fria, mais alguns goles. Entrou com um meio sorriso que sabia bem. Era segredo de Estado. Peça do destino desavisado. Partiu, deixando-se ouvir o som do salto alto batucando o piso de madeira. Deixando a sombra para trás.