domingo, 17 de junho de 2012

Mesmice


A: Não se preocupe. É o filme dela que está queimando.
B: É tão difícil entender assim?
A: Entender o quê?
B: Que não importa se a gente tem gostos em comum, se ela acha que somos feitos um para o outro. Isso não significa nada quando há o reconhecimento de almas. E isso eu não tive com ela, simples assim.
A: Desconhecia esse teu lado da vida...
B: Não há lados, não é?
A: Você nunca escreveu algo tão romântico, nem quando tentava descrever sentimentos passados...
B: Acontece.
A: Em quem você achou o que lhe falta?
B: Ainda não descobri. Quando o fizer, conto.
A: Não me parece algo encoberto
B: É de fato o que eu desejo, não?
A: E o que causou essa reflexão?
B: Não quero alguém que seja igual a mim, que goste das mesmas coisas, mesmas músicas, que seja uma cópia da minha personalidade. Quero alguém que complete minhas falhas, as minhas lacunas. Só assim é possível sermos um só e não apenas dois iguais.
A: Você está tão mudado. Reflexões como essa sempre nos fazem crescer, concorda?
B: Eu sempre busquei minha cópia. Eu me conheço o suficiente para gostar de alguém que seja parecido. É confortável, não é? Você rejeita o diferente porque não conhece, mas fica na mesmice eterna de conhecer sempre o que já faz parte da sua vida.
A: Mas é sempre bom mudar...
B: E já estava na hora de transformar esse conceito. Eu achei que esse dia nunca fosse chegar...

sábado, 19 de maio de 2012

Hoje eu conheci o Paulo


Hoje eu conheci o Paulo. O Paulo que não fala sobrenome, que faz caretas para responder e que demonstra bastante timidez ao falar. A tal insegurança é posta de lado quando alguém cruza seu caminho, todos os dias.

- Tia, me dá uma moedinha? – ele entoa, com a cara de menino que tem. A resposta muitas vezes ele já sabe.

São treze anos, com cara de mais novo e as mãos ásperas dos mais velhos. Paulo trocou o futebol com os amigos depois da aula pelas aventuras que o centro da cidade grande lhe proporciona. Ele jura de pés juntos que vai para a escola. Pela manhã. E que, ao meio dia, todos os dias, trota para Maringá com um amigo inseparável: Lazão. Um pangaré que tem de carregar o dobro do peso no lombo. Tão mirrado quanto o dono. Pergunto há quanto tempo ele tem Lazão. Instintivamente ele coloca o indicador sujo no queixo, as unhas roídas, olha para a aba do boné como quem faz pose para pensar. Cinco anos. Se ele gosta do bicho?

- Estou procurando comida para ele – logo avisa.

Revira o lixo quase de pernas para o alto. E logo a timidez anuncia que voltou. A comida não é só para o Lazão, nós dois sabíamos. Mas quem duvidaria de olhar tão profundo do menino que aos treze tinha porte de oito e responsabilidade de trinta? É impossível ignorar os olhos ávidos e curiosos de Paulo. Cor de pôr-do-sol que ele dificilmente acompanha se está preso ao trânsito da cidade. Mas que não deixam lhe escapar nada ao redor.

Ninguém bota medo na dupla que vem de Sarandi para Maringá todas as tardes. Andar pela cidade para ele não é desafio, é diversão. Aventurar-se pelas latas de lixo não é capricho do destino. Passar fome não é opção. Paulo é uma afronta para todos aqueles que torcem o nariz para os tantos Paulos da cidade. Que igualmente dizem buscar alimento para o cavalo. E o cavalo materializa-se em família – pai, mãe, irmãos. E os Paulos são cada vez mais novos, e cada vez mais ousados ao lançar-se sem medo de olhar para trás. Porque não há muito que deixar pelo caminho.

Lançar migalhas de pão como João e Maria não é um luxo desses meninos que tão cedo tem de se contentar com as migalhas dos outros. Pão seco é um prato cheio. Paulo não é acostumado a muita atenção - dádiva que os invisíveis não esperam de quem não os enxerga. Ou fazem questão de não fazê-lo. É até constrangedor para o dono de Lazão perceber que todos que passam na rua o observam.

É assustador para quem não tem medo da cidade. E só o encaram esperando o que se espera dos que habitam as ruas. O que estão fazendo, abordando quem habita um mundo diferente do seu? Eu não tenho Lazão, apesar de gostar do bicho. Não tenho a mesma coragem de Paulo de olhar nos olhos dos que são cegos. Não tenho peito o suficiente para o que aos treze é rotina para ele. Que não anda sozinho. Anda com o irmão, mais velho. Ressabiado. Desconfiado dos outros que eram para ser iguais. E não o são. Porque o tratamento, ele sabe, os olhos caídos dizem, é bem diferenciado.

Pergunto se Paulo ganhou chocolate na Páscoa. Ele faz pose de pensador novamente e balança a cabeça positivamente. Mesmo assim, ofereço-lhe um bombom, que ele aceita de prontidão e guarda-o no bolso da bermuda surrada. Observo como é ágil ao encontrar o que presta ou não dentro do lixo – onde, para os outros, nada mais presta. O garoto diz que há um ano está nas caçambas da vida. E não reclama. Atenta-se às calçadas, aos olhares que o acusam de ter nascido Paulo. Arregaça as mangas da blusa de frio – em pleno calor – e brada, sem medo:

- Tio, me dá uma moedinha?

terça-feira, 1 de maio de 2012

Caixa de arrependimentos



Toda vez que eu reabro minha caixa de memórias, sinto externar um sentimento amargo de dívida com o passado. Repasso os dedos cuidadosamente em cada envelope endereçado à pessoa que fui, prendo a respiração ao ver que as datas já estão distantes o suficiente para emergirem no breu do esquecimento. Engraçado perceber uma luz sempre irradiando lá de dentro, do fundo – da alma? – bradando por um ponto final.

Nunca gostei muito de chegar ao final. A verdadeira aventura está em percorrer o caminho... Pelo menos costumava ser assim. Já se passou tanto tempo? Preferia deixar a última página das minhas histórias descompassadas. Cansei de escrever livros em branco. Eu acredito em fases, entende? Boas e ruins. Depois de tantas maremotos, não esperava perder todos meus contos, meus personagens. Que nem eram meus.

Egoísta ao não compartilhar o desfecho de tudo. E hoje o enredo cobra um final – feliz? – e atormenta-me com os temíveis “e se?”. Reviver histórias tão antigas hoje não é uma opção. Nenhum dos integrantes atuaria novamente no mesmo cenário. Busco o quê? Voltar a ser o que era? Deixar tudo como está? Ou abro o livro do destino e começo... Bem... De onde começo? Do fim? Faço o inverso. Compreendo o início, faço do ponto de partida o meu próprio encerramento.

domingo, 22 de abril de 2012

Porque dança, então, com a vida


Não a conhecia pessoalmente, só pela voz. Na locução do outro lado da linha, há pelo menos 20 km da cidade onde ela pousava desde que era moça. A origem não sabia direcionar, mas sabia que era bem humilde – riqueza, ela dizia, tinha encontrado agora nos braços da velhice. Na fala cantada ela encantava a quem fosse detrás do riso contido. Que embora reservado, irradiava uma alegria que fulminava na idade tenra. 70 anos. E tanto há para se viver, mesmo com a tosse aqui e acolá, embalada pelos cabelos grisalhos. Ou será que pintava as madeixas? Curtos, encaracolados, lisos? O que emoldurava a feição que minha imaginação insistia em detalhar?

A conversa poderia ter se dizimado em poucas perguntas, o interesse no assunto que tinha em mente e, então, um adeus. E até nunca mais. Mas quem era aquela senhorinha, que se dizia regateira, e com quem eu estabelecia um vínculo proeminente do que era para ser formal? Não dá para ser formal demais com dona Ivanir. Porque os anos não cessam a empatia de seu ser. Porque é de seres humanos assim que nos brecam a vida, e nos fazem querer viver enquanto o tempo ainda rega os passos. Quando é que o tempo acaba? Não sabia dizer. Por isso bailava.

Dançando pelos caminhos que trilhou na roça, ainda com o marido carrancudo pela idade que lhe tirava a vontade de continuar. Estava lá, pronta para mais uma dança. Valsa é muito chique para ela, que gosta mesmo é de um vanerão. “Sou velha, mas eu gosto de me divertir, viu?”. E quem há de duvidar? Com tanto pique que nem a doença toma coragem de acamá-la. Que nem a morte tem pressa de levá-la aos grandes salões do céu. E que Deus tenha o cuidado de preparar um par que saiba conduzi-la pela eternidade nos passos ensaiados da dança, seu principal remédio.

Porque o marido, apesar de meio século ao lado da inquietude da esposa, não gostava de sacudir o corpo e afastar as enfermidades. Me questionava: se a felicidade interminável me atingia de tão longe, pelo telefone, que dirá a gratidão de conviver com tal sorriso, hoje rodeado de experiência fincada no rosto, durante praticamente toda a vida? Eu sabia que o alô não era em vão, e que a simpatia não tardava em me atingir. Justo eu, que não gostaria de envelhecer. Olhar para a velhice agora é encarar a própria dona Ivanir, da voz de menina e sabedoria milenar nas frases que proferia a cada instante. Sem conhecer seus traços. E envelhecer não seria tão ruim se eu permanecesse com a juventude dela irrigada pelas rugas que avisavam o relógio: a alegria não tem hora para acontecer.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Essas coisas que faz toda mulher

Toda mulher tem todo aquele ritual de beleza. E a cada manhã o dela se repete. Levanta, esfrega os olhos, aninha-se delicadamente por entre o lençol sedoso e o edredom fofo. Ajeita a cabeça no travesseiro novamente como se houvesse mais horas de descanso, aspira o leve perfume de creme de morango grudado na pele. Fita a parede ao lado, com aquele quadro psicodélico da banda que mais gosta. Levanta.

Dirige-se ao banheiro para o primeiro banho do dia. Lava o rosto, canta para despertar a música que vier à mente e escova os dentes. Corre para frente do espelho para dar início ao ritual necessário. Corretivo, base, pó, blush. Lápis, rímel, sombra castanha. Nos dias de bom humor, um delineador não faz mal a ninguém. Por vezes gloss e batom. E então está apresentável para saudar a rua. Ou a rua lhe saudar.

Antes de sair passa perfume atrás das orelhas e nos pulsos. Ajeita o relógio no braço esquerdo e adianta os brincos prateados nos lóbulos. Encara o feitio no espelho mais uma vez, confere o visual e parte. Volta somente à noite, na hora em que muita gente já está se preparando para dormir. O cansaço lhe consome até a raiz dos cabelos, e é preciso muito esforço para continuar – Morpheu a espera para o abraço de todas as noites.

Banho, pijamas, creme de morango. Fita o espelho e sente raiva da maquiagem borrada ao redor dos olhos. Sente-se uma panda, muito diferente do visual impecável da manhã. Prepara o demaquilante, lava o rosto mais de três vezes com sabonete de erva doce. Assustada, sente-se observada por alguém que não é familiarizada. Aperta os olhos, e a confissão é repetida por outrem. Arqueia as sobrancelhas. Abre a boca para falar, mas não consegue. Quer gritar, berrar, os olhos enchem d’água. E nada.

Há ainda a mancha preta abaixo dos olhos. Não há sabonete que tire. Produto que remova. Maquiagem tão boa que pinta a alma. Deixa delineado na expressão o que não é possível retirar com água. Nem com a melhor noite de sono que possa lhe proporcionar. Não durante a semana. Ainda assustada, analisa de perto o ser indiferente do outro lado. Reconhece-se no fundo dos olhos. Pertuba-se e deita. Que amanhã o ritual de beleza é para mascarar o que desconhece.