- Cê tá amarelo. Você tá bem?
- Amarelo porque anseio
- E fica aí, apreensivo
- Estático como uma árvore
- Agora tá ficando azul
- E você branca, igual papel
- Cachorro! Igual ao cachorro!
- Tal qual a calma, a paz
- Levanta, sai da calçada
- E sento onde? No canteiro?
- Nessas cinzas, de cigarro
- Nesse cinza de concreto
- Nessa creche, nesse inferno
- E vive o devaneio
- Transpassa a faixa, o barulho, o branco e o cinza
- E chega na praça
- Atravessa com pressa
- Não repare no sinaleiro
- Não nota. Anota. Se esconde por entre os tapumes
- Atravessa. Que tá verde.
sábado, 23 de julho de 2011
Exercício
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Estrada, caminho e abraço
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Baque seco
E um barulho, rasgando a tarde silenciosa daquela rua entremeada por avenidas, chama a atenção da secretária a fazer suas ligações. Naquela solene tarde em que o sol resolvera dar as caras. “Ó o calor aí outra vez”, exclamou fulano ali, na mesa ao lado.
Reunião, confirmar presença, remarcar viagens e atender prontamente a qualquer solicitação. Da janela via, e ouvia aquele barulho que atraíra a atenção. Um baque seco faltou ao final do grito vindo da freada brusca. Ninguém o vira, a não ser a neta.
Bem ali, naquela esquina do cachorrão. O relógio marcava quatro horas e vinte minutos de uma tarde de terça-feira. Qualquer terça-feira. Dois motociclistas cortaram caminho através da vida de outrem, e agora era tarde. Um gol vermelho ligou o pisca-alerta uns dez metros a frente. Ninguém o vira.
Olhando mais atentamente, entre uma ligação e outra, aquele senhor deitado ao chão ainda úmido. A cabeça avermelhada, o sangue formando caminho por entre as folhas secas na calçada. Meio corpo na faixa de pedestre, meio corpo ao meio fio – que escorria por toda ruela até então entediada.
Levantou-se de pronto, aos pedidos escandalosos da neta. Alívio de quem presenciara, incluindo o moço do gol vermelho – já que as motos foram-se. O dedo a altura do rosto, e um discurso de qualquer pedestre inconformado com o desrespeito. “É a sinalização, meu filho!”. Mas a culpa não fora dele. Ouviu calado, cabisbaixo.
“Vamos vovô, vamos”, insistiu a pequena. Acabara de sair do colégio, já havia chamado a atenção de todos os colegas. A ambulância estacionou ao lado, os cuidados começaram com o sangue empapando os cabelos esbranquiçados, enquanto o bigode se mexia, freneticamente, como se pertencesse a um roedor.
O jovem entrara no carro, ainda de cabeça baixa. A movimentação caiu e o telefone continuava a tocar. O sol batia sonolentamente pela janela, mesclando um vento que trazia aquela constipação típica dos desavisados – ah, essas mudanças climáticas! A poça ficara ali, escurecendo.
Outro baque. Seco.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Relativo
- Vocês ficaram?
- Não – disse, fitando o próprio pé.
- Vocês estão juntos?
- Não – repetiu, sem movimentar qualquer parte do corpo.
- Diga isso olhando nos meus olhos!
- Não. NÃO! Satisfeito?
- Não. Você gosta dele.
- E se gostar?
- Não existe “e se”, é simplesmente visível. Só você não percebeu.
- Quem disse que não?
- Então porque tenta esconder?
- Por tudo que já respondi. E que é verdade.
- Então pare de fantasiar. Criar uma realidade que não é sua. Pra quê fazer isso?
- Pra viver.
- Eu ainda não entendo.
- Deve ser terrível viver todos os dias sem sentir o coração acelerando.
- Isso não é viver, é morrer todos os dias.
- Isso responde tudo que você precisava saber.
- Mas você gosta de algo que não existe.
- Existe, para mim sempre existiu e sempre vai existir. Eu o criei.
- E acredita em algo que não existe. Ele não vale a pena.
- Essa é a sua conclusão.
- É a verdade. Não vê? Vai te machucar.
- Eu não me importo.
- Eu ainda não entendo. Por quê?
- Porque já faz parte de mim.
sábado, 2 de julho de 2011
A arte de conversar sério
- Eu vou ficar bravo com você
- O que eu fiz?
- Eu estou bravo com você
- E não vai falar o motivo?
- Não é bravo, é chateado
- Mas me conta... Por favor!
- Ah, você sabe o porque...
- Sei, mas quero ouvir de você
- Você tá obsessiva
- Isso é ciúme?
- Também. Mas você continua obsessiva...
- Claro que não...
- Dizer “eu te amo, seja feliz”, é amor. Gritar “eu quero!”, é obsessão
- Não, é “O Segredo”
- risadas -
- Não creio nisso... Você não existe
- Viu? Não é obsessão.
