terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Edifício 366


Ele falava repetidamente ao telefone como se esperasse algum fio de assunto, perguntar qualquer coisa. Eu, que tinha ligado somente para ouvir aquela voz, perguntar como havia sido o dia, mas principalmente, deleitar-me com aquele timbre tão imitado por meus amigos. É eles sabiam bem, que apesar de enfezada, eu gostava de ouvir até mesmo a réplica daquela voz. Era suave, e eu cá imaginando a expressão que ele fazia a cada sílaba mencionada.
- Huhum, ahhh...
Era a brecha para mais falatório. Como é que conseguia? Tão íntegro, inteligente, tão centrado.
- Porque você sabe, se tiver que acontecer alguma coisa, eu ir embora... Vai ser você.
Acordei daquele sono doentio. O que ele havia dito?
- Han?
- Caso eu tenha de ir embora, sabe? A gente nunca sabe.

- Mas...
- E eu queria que você cuidasse de tudo por aqui.
- Isso é uma afirmação ou uma suposição, afinal?
- É uma suposição, óbvio, mas quem é que pode interpretar o futuro, não é?
A voz que antes acariciava os tímpanos passou a agir como agulhas infiltrando o meu cérebro. O ritmo cada vez mais aguçado da repetição de todas aquelas falas. Será? Bem que suspeitava, logo que entrei na vida dele, que isso outrora aconteceria. Mas já? Tão cedo? Era só um ano que pude acompanhá-lo de perto. Tantas oportunidades, tanto a admirar, como por um ponto final assim, logo no fim do ano?
- Belo presente de natal!
- Não seja irônica comigo, Ana. Você sabia que isso poderia acontecer.
- Mas precisava ser tão logo?
- Eu não imaginava que fosse conhecê-la, não estava em meus planos.
- E não está mais, não é?
Alguns minutos se passaram, o eco de nossas respirações foi retraído por um choro sutil. Mas que droga! Eu não poderia ser fraca, não agora! Juro ter ouvido um engolir grosso antes da próxima fala.
- Eu te levaria comigo se pudesse, você sabe disso. Não chora.
- Chorar te faz ficar com peso na consciência? Parabéns, sentimentalismo nunca foi seu forte!
- Descontar a raiva em mim agora não vai ajudar em nada... Você sabe, eu vou voltar.
- É a promessa de todos, não é?

- Eu preciso de um futuro, um trabalho.
- E o nosso futuro não conta?
- Ele vai ficar para onde eu vou agora: para o futuro.
- Ah, passe bem!
Desliguei o telefone. Estava atônita. Se eu não pudesse partir com ele, partiria de qualquer maneira. Corri pelo corredor do prédio apertando os botões do elevador. Não funcionavam, acho que estavam em manutenção. Nada daria certo a partir de agora, eu previa. Abri a pesada porta da escadaria. Eram oito andares ao todo. Forjaria um tropeço e então o guardaria na memória como o bom rapaz que sempre fora. Sentei. Não poderia fazer isso com ele, as consequências causadas nele seriam corrosivas. Estragaria os planos. Eu não conseguia mais conciliar o choro e a tentativa de tê-lo novamente. O telefone começava a vibrar no meu bolso. Ele. Não atendi, não queria que testemunhasse o meu fracasso.

Uma parte de mim dizia para voltar para casa, me afogar em lágrimas ao travesseiro, assistir uma comédia romântica e chorar mais ainda. A outra parte em contrapartida queria vingança, queria que ele ficasse mal. Mas eu não era assim, eu não partilharia minha dor de tal forma, afinal, ele voltaria, não é mesmo? São Paulo não poderia ser tão longe, não poderia nos impedir. O telefone tocando novamente, insistência. Acho que ele realmente está preocupado. Pensasse nisso antes. Para Ana! Não é assim que as coisas funcionam! Atenda. Se você o fizer, será tão fraca quanto fora quando o perdeu para um emprego longe daqui. Mas é o melhor para vocês. Não, não é.
O conflito dentro da mente não acabaria nunca? Eu precisava por um basta nisso tudo, sempre achei que tinha uma dupla personalidade escondida por trás de minhas escolhas mais insanas. Olhei para o relógio do aparelho celular, uma SMS tinha acabado de chegar, e essa eu teria de abrir. “Ana, por favor, fique bem ok? Não seja imprudente consigo mesma. Sabe o quanto é importante para mim.”. Eu já tinha es
quecido os oito andares de escada abaixo. Agora subia os dois últimos para atingir a cobertura do prédio. Ventava, estava frio, era exatamente 19h50 de uma sexta-feira com horário de verão sendo oprimido por nuvens escuras. Olhei para cima, as gotas tímidas engrossavam e pesavam no meu cabelo. Cheguei até a beirada do edifício e olhei para baixo. Não doeria tanto quanto ele fez doer em mim, certo? Os carros passando, as pessoas fugindo da chuva. Buzinas, pombas se embolando nos galhos das árvores, cada mundinho particular perpetuado aos meus olhos, minha última visão.
Lembrei de quando nos conhecemos, ao acaso, na sala de aula. Fora tirar uma dúvida com a professora e eu de cara já me encantei. Não era nem nunca foi o tipo que agradava minhas amigas, elas que preferiam músculos ao cérebro. Mas desde então, ternura, paciência e compreensão foram fatores fundamentais para crescer o que já havia plantado naquela coincidentemente sexta-feira. E agora aqui, sem ele e com a esperança de extorquir o lamurio das minhas preces de que ele voltaria, atrasava cada vez mais a minha despedida. Cansada de esperar por mim mesma, fiquei de pé diante da cidade. Eram dez andares, sei que edifícios maiores dominavam, sei também que no dia seguinte eu não apareceria em jornais, não era comum denunciarem suicídios. Mas serei eternamente a capa que ilustrará a vida dele, e para mim era o suficiente. Egoísta! Menina egoísta! Não faça isso.
Um passo, os olhos fechados. Adeus.
- Não, Ana! Ana!
Olhei para trás assustada. Então ele veio? Eu mal podia acreditar! Chorava de alegria, o riso misturando-se à chuva, às lágrimas, ao alívio. Tremia. Desequilibrei uma perna já no ar. Queria voltar, mas ao instante que olhava para cima, vendo as janelas e as sacadas passando por mim, vendo a chuva descer da nascente mãe-nuvem. Idiota! Agora sim o perdeu para sempre. Eu não queria, sabia bem, eu não queria. Ainda via o rosto dele desesperado lá de cima, minha hora estava chegando. O baque nas minhas costas não doeria tanto quanto perdê-lo novamente. E foi assim que o fiz.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

É, saiu...

Em meio às reclamações por não conseguir escrever durante o tempo que me ausentei daqui, meus caros, voltei antes que o ano terminasse com uma frase que justificava o sumiço: cérebro pifado!
Obrigada, Alexandre.

Acidente do neurotransmissor

- Parece que pifou o cérebro! – ele ouvia entre tantos reflexos da iluminação incidente naquele leito ao qual se encontrava. Entre tantos passos direcionados.
Sentia-se em uma experiência científica que não deu certo. O peito nu estirado na maca, repleto de sensores monitorando o batimento cardíaco. Ora essa! O coração era de quem afinal? O barulho de bisturis, a máquina ao lado emitindo bips e freqüências semelhantes que indicavam a sobrevivência do paciente.
Parecia aquele seriado de TV, não parecia? Era o que ele buscava imaginar, naquela embriaguez provocada pelos medicamentos em excesso, tudo para inibir a dor. Que dor, afinal, sentia? Qual o resultado de toda aquela curiosidade em perfurar a carne? Era nítida a expressão desfigurada. Por volta dos 22 anos, acidente de carro, as enfermeiras fofocavam no corredor, entre uma xícara de café e outra.
- Mas vai demorar?
- Deus sabe!
- Sobreviverá?
- Isso é com o doutor.
A discussão perdurou até o chamado do médico, que necessitava de mais algum material para cavucar a cobaia. Uma última costura, uma prévia do que havia feito: trabalho finalizado! Luzes apagadas, de volta à enfermaria.
Abriu os olhos sem saber quanto tempo havia ficado ali. Tentou repuxar o braço que era dominado pelo soro gotejante ao lado. Um sobressalto da cadeira e a senhora correu até o pé da cama.
- Não pode ser! É um milagre!
Ainda com os olhos embaçados, reconheceu a mãe, com algumas rugas a mais. Abatida, aparência cansada. Comemorava algo, chamava as enfermeiras... Mas tinha sido somente uma festa! Para que fazer outra, ainda mais no hospital? A volta de uma festa que não acabou com uma simples ressaca.
- Como você está se sentindo, meu bem? – carinhosa como sempre fora, ela acariciou os cabelos já mais compridos que o de costume.
- Parece que pifou o cérebro! – proferiu, antes de cair em sono profundo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Primeiro e único


Era fim de expediente quando passei no boteco da esquina tomar um café. Sentei defronte ao balcão e, apoiado com o cotovelo, segurava um pito na outra mão. Tragava com tanto prazer, que só um fim de tarde daquele me faria ter a sensação de dever cumprido. A semana toda foi corrida, os dias eram corridos e eu mal tinha tempo para pensar o quão contraditório era achar que a fumaça me faria um bem inexistente. Alívio. Fitei a rua movimentada, de tantos outros seres que foram libertos das correntes assalariáveis.
Tudo começara no jardim de infância, naquelas típicas atividades que teimam em transfigurar a criatividade infantil no papel. E foi bem na ocasião que fomos apresentados.
- Prazer, papel, lápis e borracha.
- Prazer, seu devoto até que os dias se apaguem...
Foi um momento que eu não esperava que ficasse guardado por tanto tempo na memória, mas felizmente ou infelizmente, hoje faz parte do meu ganha-pão, a tal da escrita. Não decifrava muito bem os sentimentos, embora o que eu sentisse fosse mais forte que minha vontade nula de querer parar. Eu não podia, não conseguia... Elas simplesmente surgiam na minha mente pedindo para que minhas mãos as parissem.
- Bem vindas ao meu mundo, Palavras.
E juntas formavam as mais belas frases. Quisera ter escrito aquilo. Era talento? Irreconhecível. Como é que identificaria? Não sabia se eram meus versos, embora tivessem tanto de mim. Nossa ligação era intensa demais para abandonar a prática por qualquer rancor. Eu estava realmente interessado em decifrar como surgira essa paixão, quando fui interrompido por uma garotinha.
- Moço, moço!
Fiquei calado, apenas encarando aqueles olhos esbugalhados. Percebi que as mãozinhas apoiadas no banco ao lado tremiam. Ajudei a frágil criaturazinha alcançar o balcão, era justo que ficássemos a uma altura semelhante, já que estava sentado. Apaguei o cigarro e voltei-me a ela, ansiando alguma reação.
- É ele mamãe, eu sei que é! – gritou a menina para a mãe, que tinha debaixo dos braços pães caseiros – possivelmente um auxílio à renda familiar. Tanto empenho para criar alimento, e eu pensando que me alimentaria de vocabulário para o resto da vida. Estranha a circunstância.
- Em que posso ajudar? – arrisquei. Que mal faria?
- Moço, me dá um autógrafo?
Incrédulo e envergonhado, fitei minha mão. Como era desengonçado! Quando levantei os olhos, percebi que ela empurrava um guardanapo em minha direção, acompanhado de uma caneta bic azul.
- Por favor, moço! Só um autógrafo!
Como é que me conhecia? Aposto que nem sabia ler. Mas resolvi optar pela saída mais fácil, antes que desapontasse a vontade da mocinha. Rabisquei meu nome, como se não me pertencesse. A caligrafia era minha, mas quem é que estava escrevendo?
- Obrigada moço! Muito obrigada! – foi a última coisa que disse antes de pular do banco e correr abraçada ao guardanapo amassado. Segurou na mão da genitora e saíram do recinto.
Qual a graça de guardar um pedaço de papel com o meu nome? Que diferença aquilo iria fazer na vida dela? E como me conhecia, a tal criança? Era impossível acreditar que a cena fosse real, não poderia ser.
- Que foi Beto? – perguntou o senhor, dono do estabelecimento, enquanto enxugava um copo.
- Ganhei uma fã. Minha primeira fã. – levantei e voltei para casa, caminhando e pensando no primeiro e único guardanapo que assinei.

domingo, 8 de novembro de 2009

Ao acaso

Reflexiva por conta de um simples ato, ou a falta dele. Todos que convivem nas proximidades do meu mundinho terreno sabem o quanto desprezo o tal Domingo. Um dia convidativo para o tédio e para a preguiça, que aliados, resultam na perda total de 24h que poderiam ser bem aproveitadas.
Não foi o que aconteceu, já que meu primeiro dia da semana fugiu do esperado. O “Enade”, prova que qualifica o centro universitário que estudo ocupou alguma porcentagem do dia chato. Festinha de criança, e então, como era de se esperar, um filme para fechar a noite. Foi escolhido ao acaso, pois um de meus passatempos é vagar pelos corredores da locadora vendo e revendo os títulos que anseiam por uma platéia.
Na agressividade e intolerância por não encontrar as películas que procurava, optei por “Orgulho e Preconceito”, de 2005, a versão mais recente da adaptação do romance de Jane Austen.
Limito-me a dizer que é uma belíssima história. O que me deixou inquieta? Oras, para onde correram as lágrimas? Jurei não ter escondido a emoção debaixo do travesseiro! Por mais que tentasse, não consegui expressar o quão me maravilhei com as cenas de declaração do pseudo-arrogante Mr. Darcy e da sincera Elizabeth. Presenciei a falência de uma romancista, então. Eis o drama da minha vida, que foge de uma divina comédia para apoderar-se de crises assim. E enquanto não encontro as malditas lágrimas por um happy end, busco tal solução para o fim da minha dramaturgia típica de domingo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

É também, despedida

Um ano havia se passado até o reencontro, planejado por cerca de um mês antes. À tarde que quase não acontecera, fez mais que um papel de acontecimento banal. Era um novo desafio arremessar-se em outro devaneio do destino, e ela não perderia tal oportunidade. O calor latente de um domingo nada convencional deixava o sorriso dele mais iluminado que o normal. O óculos levemente torto, fora o cabelo, nada tinha mudado em 364 dias em que ficaram sem se ver. Era estranho reconhecer que mesmo com a distância, pouco havia mudado no que conversavam – ainda se davam bem, ainda tinham coisas em comum.
Em uma pausa teimosa de um questionário qualquer – era mal de Lygia sempre fazer esses interrogatórios – fitaram-se por um longo instante.
- Eu gosto dos seus olhos – disse ele, observando o tom róseo apossar-se do rosto dela. Não era a primeira pessoa que fazia tal comentário, mas o timbre da voz dele fazia toda a diferença.
Levantando a cabeça, ela retribuiu o elogio, tentando reposicionar o óculos torto no rosto do rapaz. O silêncio impregnou a atmosfera, os gritos do jogo de truco ao fundo foram ficando cada vez menos audíveis. Ele delineou os cabelos curtos com as mãos, ela fechou os olhos, prestando atenção no que conseguia ouvir além da respiração – Foo Fighters, Learn to fly – era óbvio, ela adorava essa música. E fez jus à tradução: aprendeu a voar.