sexta-feira, 8 de abril de 2011

Roda de cores

É que as cores fazem tanto sentido como se nada fizesse. Capiche? É, complicado. Azul, amarelo, vermelho! Primária, eu? São elas! Tão lindas... Vêm, vem e se junte a nós: verde, laranja, roxo, cor-de-rosa, marrom. Azul escuro, azul claro. Verde limão, amarelo canário. Verde água! Azul ciano. Salmão. São todas... por assim ser. O que é pra mim, é pra você? E gira roda vida. Paleta de cores vivas. Tanto que nem sei, arco-íris com precisão. Óculos de sol e escuridão... O sol, amarelo. Lua crua, lua nua, lua azul. De queijo. Amarelo. Psicodelia que às vezes me leva a duas dimensões compostas por preto e branco. Abertura de texto? Pretexto. Pra quê? Pintar... de cinza.

E que graça teria agora, meu momento dividido, minha vida em euforia... não fosse essa amizade. Essa amizade colorida?

sábado, 2 de abril de 2011

Adiante

O estalo do texto nasce com o inesperado. Na cabeça brota um fiozinho de dizeres bonitos, que narram o que os olhos prevêem. A noite sorrateira, o vento levemente gelado e o som ecoando na rodovia dos pensamentos infundados. Sem direção. Ouso olhar ao redor infinitas vezes. “Está procurando alguém?”. “Não” – mentira. E de tantas outras mentiras que teimo contar para meu próprio reflexo, na esperança vã de uma crença momentânea. Confio na credibilidade dos dizeres, na força de vontade de que aquilo funcione, no fato proclamado com tanta convicção. Mas não creio no que os olhos escondem, no opaco sorridente que vibra a cada calúnia disseminada. Carma.

E o tempo conspira, passa depressa. O som cada vez mais distante, e os olhares perdidos dentre tantos outros perdidos na noite - qualquer, de tantas qualqueres, da vida à mercê da espera. Do que nunca virá. “Está por aí, eu sei”. E por saber, meus pés tremelicavam em nítida manifestação de irritabilidade. E estava. Em algum canto.

Corpos balançavam, ao ritmo disritmado da melodia. Do hipnotismo dos acordes, no dobrar dos joelhos acompanhando os batuques. Do olhar buscando outrem, na massa homogênea em características. Fitei os pés, desfitei o que tinha em mente. Olhei adiante e permaneci.

A atmosfera já me fazia absorver as ações frenéticas dos demais. Um ritual. Sabiamente olhei para o lado, ao longe. Avistei rostos transfigurados, desfigurados e figurados. A troca de olhar foi iminente, atravessando chapéus, cabeças e zumbis que balançavam. Eu já havia decorado aqueles olhos e o que diziam. Outra vez. Busquei o som, em sintonia, e repeti os mesmos gestos dos demais. Era só mais um. Olhar.

*Do aglomerado de textos intitulado "Preto & Branco"

sexta-feira, 25 de março de 2011

Silenciosamente

A exaustão fez com que seu afastamento fosse repentino. Até respirar exigia algum esforço daquele que já contemplava alguns fios de cabelo branco na cabeça. Precocemente. Passou a desgostar do que antes lhe completava o perfil original. Festas, amigos, bebedeira, bons diálogos. Tinha preguiça de prosseguir com algum bate-papo. Injuriava-lhe o tempo que gastava nos ônibus da vida, com conversas tão infundadas dos passageiros que não conseguiam falar de outra coisa. Assuntos pertinentes só chamavam a atenção quando era para discutir algo que envolvia desgraças mundanas. Hábito moldado.

Acostumado ao próprio silêncio, já em tenra idade transfigurava o adolescente tagarela em uma sombra sorrateira, que só fazia acompanhar a movimentação ao redor. Em casa, afundado em depressão não identificada, evitava proferir muitas palavras. O silêncio já era companheiro mais que suficiente para suas aventuras em livros comprados pela internet ou raridades de sebos e outras coisas que apreciava. Era um homem só. Puxavam assunto na portaria do edifício em que trabalhava. Acenava com a cabeça. Só sabia discordar ou concordar com movimentos de pescoço. Criticava mentalmente.

A atmosfera parecia demasiadamente inferior ao que ele poderia transpor à sociedade que o transformava. Isolava-se. Mantinha contato com outrem monossilabicamente, embora não fossem diferentes: tinham necessidade de treinar a fala. Ele não - desprezava. Poderia ter nascido mudo, continuaria fazendo o que bem fosse da mesma forma que sempre o fizera: cabisbaixo, discreto e indiscutivelmente bem feito.

Não se importava muito com o que acontecia diante dos olhos turvos. A única necessidade que via era produção, (auto) reconhecimento e aquilo que já sabia bem: não pertencia a este mundo. Seu fim já decorado estampava os sonhos de todas as noites. Monocromáticos e cinema mudo, onde o herói deixava de salvar alguém atado aos trilhos do trem – ele próprio lançava-se de encontro ao maquinário. A única forma que encontrava de fixar os sonhos que nutria. O baque seco, a história sem enredo, sequenciada por formações de imagens. O silêncio fiel.

*Do aglomerado de textos intitulado "Preto & Branco"

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Só pra constar

E não deixar de postar.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Para finais felizes

Por que ficar até o final? Perguntei-me atônita. Pôxa, no salubre desfecho insolente – não deveria terminar assim comigo – a escuridão é ignorada plenamente pelas luzes, ao mesmo tempo, acesas. Como se algo no meio da sala houvesse sorrateiramente expulsando as demais pessoas do local. Seria cômodo levantar e prosseguir, não fosse a curiosidade. Não fossem os gracejos de permanecer de mãos entrelaçadas, até o fim.
Que sentido teria, então, ao breu tremelicado de significados brancos, atendendo ao pedido de compreensão dos mais atentos à trilha sonora. Ou ao mocinho que chamara a atenção. Ele trabalhou naquele outro filme, lembra-se? Aguardo.
Os pés inquietos batucam o chão de madeira, o ambiente familiar. Os letreiros correm, saciam. Até o fim. É muito estranho isso? Seria não fosse a natural curiosidade. Fatalidade essa de querer desvendar, tudo, tanto. Que nem sei. Levanto.
E que felicidade em ter do lado quem partilha do encanto de ver subir até a última letrinha. Simbologias toscas, que garantem o que haveria de saber. Por aguardar pacientemente, partilhando do que achara da história. Expresso: que amor a sua namorada!