sexta-feira, 28 de março de 2014
Da carta que escrevi, mas não mandei
domingo, 17 de junho de 2012
Mesmice
sábado, 19 de maio de 2012
Hoje eu conheci o Paulo
Hoje eu conheci o Paulo. O Paulo que não fala sobrenome, que faz caretas para responder e que demonstra bastante timidez ao falar. A tal insegurança é posta de lado quando alguém cruza seu caminho, todos os dias.
- Tia, me dá uma moedinha? – ele entoa, com a cara de menino que tem. A resposta muitas vezes ele já sabe.
São treze anos, com cara de mais novo e as mãos ásperas dos mais velhos. Paulo trocou o futebol com os amigos depois da aula pelas aventuras que o centro da cidade grande lhe proporciona. Ele jura de pés juntos que vai para a escola. Pela manhã. E que, ao meio dia, todos os dias, trota para Maringá com um amigo inseparável: Lazão. Um pangaré que tem de carregar o dobro do peso no lombo. Tão mirrado quanto o dono. Pergunto há quanto tempo ele tem Lazão. Instintivamente ele coloca o indicador sujo no queixo, as unhas roídas, olha para a aba do boné como quem faz pose para pensar. Cinco anos. Se ele gosta do bicho?
- Estou procurando comida para ele – logo avisa.
Revira o lixo quase de pernas para o alto. E logo a timidez anuncia que voltou. A comida não é só para o Lazão, nós dois sabíamos. Mas quem duvidaria de olhar tão profundo do menino que aos treze tinha porte de oito e responsabilidade de trinta? É impossível ignorar os olhos ávidos e curiosos de Paulo. Cor de pôr-do-sol que ele dificilmente acompanha se está preso ao trânsito da cidade. Mas que não deixam lhe escapar nada ao redor.
Ninguém bota medo na dupla que vem de Sarandi para Maringá todas as tardes. Andar pela cidade para ele não é desafio, é diversão. Aventurar-se pelas latas de lixo não é capricho do destino. Passar fome não é opção. Paulo é uma afronta para todos aqueles que torcem o nariz para os tantos Paulos da cidade. Que igualmente dizem buscar alimento para o cavalo. E o cavalo materializa-se em família – pai, mãe, irmãos. E os Paulos são cada vez mais novos, e cada vez mais ousados ao lançar-se sem medo de olhar para trás. Porque não há muito que deixar pelo caminho.
Lançar migalhas de pão como João e Maria não é um luxo desses meninos que tão cedo tem de se contentar com as migalhas dos outros. Pão seco é um prato cheio. Paulo não é acostumado a muita atenção - dádiva que os invisíveis não esperam de quem não os enxerga. Ou fazem questão de não fazê-lo. É até constrangedor para o dono de Lazão perceber que todos que passam na rua o observam.
É assustador para quem não tem medo da cidade. E só o encaram esperando o que se espera dos que habitam as ruas. O que estão fazendo, abordando quem habita um mundo diferente do seu? Eu não tenho Lazão, apesar de gostar do bicho. Não tenho a mesma coragem de Paulo de olhar nos olhos dos que são cegos. Não tenho peito o suficiente para o que aos treze é rotina para ele. Que não anda sozinho. Anda com o irmão, mais velho. Ressabiado. Desconfiado dos outros que eram para ser iguais. E não o são. Porque o tratamento, ele sabe, os olhos caídos dizem, é bem diferenciado.
Pergunto se Paulo ganhou chocolate na Páscoa. Ele faz pose de pensador novamente e balança a cabeça positivamente. Mesmo assim, ofereço-lhe um bombom, que ele aceita de prontidão e guarda-o no bolso da bermuda surrada. Observo como é ágil ao encontrar o que presta ou não dentro do lixo – onde, para os outros, nada mais presta. O garoto diz que há um ano está nas caçambas da vida. E não reclama. Atenta-se às calçadas, aos olhares que o acusam de ter nascido Paulo. Arregaça as mangas da blusa de frio – em pleno calor – e brada, sem medo:
- Tio, me dá uma moedinha?
terça-feira, 1 de maio de 2012
Caixa de arrependimentos
Toda vez que eu reabro minha caixa de memórias, sinto externar um sentimento amargo de dívida com o passado. Repasso os dedos cuidadosamente em cada envelope endereçado à pessoa que fui, prendo a respiração ao ver que as datas já estão distantes o suficiente para emergirem no breu do esquecimento. Engraçado perceber uma luz sempre irradiando lá de dentro, do fundo – da alma? – bradando por um ponto final.
Nunca gostei muito de chegar ao final. A verdadeira aventura está em percorrer o caminho... Pelo menos costumava ser assim. Já se passou tanto tempo? Preferia deixar a última página das minhas histórias descompassadas. Cansei de escrever livros em branco. Eu acredito em fases, entende? Boas e ruins. Depois de tantas maremotos, não esperava perder todos meus contos, meus personagens. Que nem eram meus.
Egoísta ao não compartilhar o desfecho de tudo. E hoje o enredo cobra um final – feliz? – e atormenta-me com os temíveis “e se?”. Reviver histórias tão antigas hoje não é uma opção. Nenhum dos integrantes atuaria novamente no mesmo cenário. Busco o quê? Voltar a ser o que era? Deixar tudo como está? Ou abro o livro do destino e começo... Bem... De onde começo? Do fim? Faço o inverso. Compreendo o início, faço do ponto de partida o meu próprio encerramento.
domingo, 22 de abril de 2012
Porque dança, então, com a vida
Não a conhecia pessoalmente, só pela voz. Na locução do outro lado da linha, há pelo menos 20 km da cidade onde ela pousava desde que era moça. A origem não sabia direcionar, mas sabia que era bem humilde – riqueza, ela dizia, tinha encontrado agora nos braços da velhice. Na fala cantada ela encantava a quem fosse detrás do riso contido. Que embora reservado, irradiava uma alegria que fulminava na idade tenra. 70 anos. E tanto há para se viver, mesmo com a tosse aqui e acolá, embalada pelos cabelos grisalhos. Ou será que pintava as madeixas? Curtos, encaracolados, lisos? O que emoldurava a feição que minha imaginação insistia em detalhar?
A conversa poderia ter se dizimado em poucas perguntas, o interesse no assunto que tinha em mente e, então, um adeus. E até nunca mais. Mas quem era aquela senhorinha, que se dizia regateira, e com quem eu estabelecia um vínculo proeminente do que era para ser formal? Não dá para ser formal demais com dona Ivanir. Porque os anos não cessam a empatia de seu ser. Porque é de seres humanos assim que nos brecam a vida, e nos fazem querer viver enquanto o tempo ainda rega os passos. Quando é que o tempo acaba? Não sabia dizer. Por isso bailava.
Dançando pelos caminhos que trilhou na roça, ainda com o marido carrancudo pela idade que lhe tirava a vontade de continuar. Estava lá, pronta para mais uma dança. Valsa é muito chique para ela, que gosta mesmo é de um vanerão. “Sou velha, mas eu gosto de me divertir, viu?”. E quem há de duvidar? Com tanto pique que nem a doença toma coragem de acamá-la. Que nem a morte tem pressa de levá-la aos grandes salões do céu. E que Deus tenha o cuidado de preparar um par que saiba conduzi-la pela eternidade nos passos ensaiados da dança, seu principal remédio.
Porque o marido, apesar de meio século ao lado da inquietude da esposa, não gostava de sacudir o corpo e afastar as enfermidades. Me questionava: se a felicidade interminável me atingia de tão longe, pelo telefone, que dirá a gratidão de conviver com tal sorriso, hoje rodeado de experiência fincada no rosto, durante praticamente toda a vida? Eu sabia que o alô não era em vão, e que a simpatia não tardava em me atingir. Justo eu, que não gostaria de envelhecer. Olhar para a velhice agora é encarar a própria dona Ivanir, da voz de menina e sabedoria milenar nas frases que proferia a cada instante. Sem conhecer seus traços. E envelhecer não seria tão ruim se eu permanecesse com a juventude dela irrigada pelas rugas que avisavam o relógio: a alegria não tem hora para acontecer.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Essas coisas que faz toda mulher
Toda mulher tem todo aquele ritual de beleza. E a cada manhã o dela se repete. Levanta, esfrega os olhos, aninha-se delicadamente por entre o lençol sedoso e o edredom fofo. Ajeita a cabeça no travesseiro novamente como se houvesse mais horas de descanso, aspira o leve perfume de creme de morango grudado na pele. Fita a parede ao lado, com aquele quadro psicodélico da banda que mais gosta. Levanta.
Dirige-se ao banheiro para o primeiro banho do dia. Lava o rosto, canta para despertar a música que vier à mente e escova os dentes. Corre para frente do espelho para dar início ao ritual necessário. Corretivo, base, pó, blush. Lápis, rímel, sombra castanha. Nos dias de bom humor, um delineador não faz mal a ninguém. Por vezes gloss e batom. E então está apresentável para saudar a rua. Ou a rua lhe saudar.
Antes de sair passa perfume atrás das orelhas e nos pulsos. Ajeita o relógio no braço esquerdo e adianta os brincos prateados nos lóbulos. Encara o feitio no espelho mais uma vez, confere o visual e parte. Volta somente à noite, na hora em que muita gente já está se preparando para dormir. O cansaço lhe consome até a raiz dos cabelos, e é preciso muito esforço para continuar – Morpheu a espera para o abraço de todas as noites.
Banho, pijamas, creme de morango. Fita o espelho e sente raiva da maquiagem borrada ao redor dos olhos. Sente-se uma panda, muito diferente do visual impecável da manhã. Prepara o demaquilante, lava o rosto mais de três vezes com sabonete de erva doce. Assustada, sente-se observada por alguém que não é familiarizada. Aperta os olhos, e a confissão é repetida por outrem. Arqueia as sobrancelhas. Abre a boca para falar, mas não consegue. Quer gritar, berrar, os olhos enchem d’água. E nada.
Há ainda a mancha preta abaixo dos olhos. Não há sabonete que tire. Produto que remova. Maquiagem tão boa que pinta a alma. Deixa delineado na expressão o que não é possível retirar com água. Nem com a melhor noite de sono que possa lhe proporcionar. Não durante a semana. Ainda assustada, analisa de perto o ser indiferente do outro lado. Reconhece-se no fundo dos olhos. Pertuba-se e deita. Que amanhã o ritual de beleza é para mascarar o que desconhece.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Incêndio
Fazia frio. O vento sussurrava pela fresta da janela. Papai e mamãe assistiam novela lá na sala, e eu tentava dormir com os dentes rangendo. Deitei ao lado de meus irmãos e o sono estava mais distante do que o verão. Olhava para o teto, pelo quarto delineado pelos feixes de luz vindos da televisão do outro cômodo. Som de risadas. Meu urso parecia maior visto pela sombra – ganhei da madrinha no dia em que completei três anos.
Os olhos foram se enchendo de areia. As pálpebras caindo aos poucos. Sonhava com a profissão que já era certa: seria herói. Bombeiro. Era o que o destino me reservava, sem imaginar que seria tão cedo. Ouvia gritos distantes, um calor latente. Era preciso arremessar o edredom ao pé da cama e evitar que amanhecesse todo suado.
Os gritos se intensificaram. Um forte cheiro invadiu meus pulmões fazendo com que eu levantasse, de súbito. Tossia mais e mais. A fumaça permeando o quarto inteiro, o desespero estampado nas feições de quem era do meu sangue. Não pude gritar, ainda tossia. Papai tentava nos tirar dali enquanto mamãe, desesperada, fazia alguma ligação. Eu conheceria meu destino. Só não imaginei que tão cedo.
Corri para o banheiro, imaginando a quantidade de água disponível para apagar as chamas. Da porta, de soslaio, pude ver meu urso de pelúcia perdendo o formato original, mudando a cor para um tom mais escuro. O focinho de plástico derretia aos poucos. Em seus olhos as chamas ainda eram refletidas. Encurralado. Uma tocaia.
Fazia calor. A sirene ecoava pela rua da minha casa. Urros. Vi por entre as labaredas um vulto, poderia ser papai. Ou meu urso. Ou meu destino. A fumaça tomava cada vez mais conta do ambiente. Onde estariam meus irmãos? Agachei tentando não respirar mais... Tossia. Tossia. Tossia. E já não respirava. Era o que o destino me reservava. Eu não imaginava que viria tão cedo.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Do que desconhecia

Já estávamos no meio da tarde e eu pronta para ir embora quando ofereceste o mp3 para que me fizesse companhia na escrivaninha solitária. Olhei para o relógio. E ele poderia esperar. O volume altíssimo soava estridente aos pequenos e inofensivos fones de ouvido. “Você é surdo?”, questionei de sobrancelha arqueada. Diminui gradativamente um Maroon 5 dançando igual ao Jagger, seguido de alguma outra batida pop que eu não fazia ideia do que era – e agradecia a cada segundo passado por não ser alguém bradando possibilidades em me pegar.
Fui adiante, uma música infantil. Olhei pro teu cabelo bagunçado e ri baixinho. Pensei que encontraria Strokes no seu acervo pessoal de músicas. E achei bonitinho por não encontrá-lo. Eu comentei que precisava enfrentar o sol forte e ir até o clube, quando você disse que fazia aula de tênis por lá. Sentiu-se lisonjeado por ser o primeiro a se inscrever nas aulas e passar o primeiro dia com pose de treinador na quadra. Ser esportista não faz o seu perfil. Muito menos o meu, mas senti imensa vontade de começar aulas de tênis.
Faz quanto tempo que nos conhecemos mesmo? Bem lá seus oito anos. E nunca notei que tudo o que sabia a seu respeito era o que eu deduzia que era. Totalmente errado. Ultimamente você tinha o costume de ficar até mais tarde naquela sala – e sempre fiquei admirada. Como trabalhava! Até o dia em que fui averiguar suas pesquisas – livros e mais livros de inglês. “Por que diabos não estudava em casa?”, questionei-me inconscientemente. Pra lá dos 27 e sem perder tempo – como é que eu não sabia disso? Achei que tinha comentado no último café.
O sol ia abaixando lentamente e você me ofereceu uma carona. Recusei por medo de redescobrir com quem convivia. Enfrentei o suor e o risco de pegar um bronzeado inadequado. Andei lentamente sem a pretensão de chegar em casa. Acho que deveria me matricular nas aulas de tênis, sabe como é. Aquelas velhas resoluções de ano novo talvez venham a calhar...
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
José Guidelli
Chinelo havaianas, camiseta do esposo. Vermelha. Short de elástico xadrez, daqueles bem surrados. Olhar perdido, cabelo preso num rabo de cavalo baixo. Unhas roídas, lembranças carcomidas pelo tempo. Virou de lado. Tênis, bermuda e camiseta. Boné de propaganda verde musgo. Desbotado. Cicatriz pelo rosto, talvez pelo peito. Mancha arroxeada na têmpora. Calor latente. 21h47. “Qual é o caixa rápido?”, bradou uma senhora desbocada. Vestido florido, camisola. “Que mercadinho mais furreba”, pisou duro. E foi-se, derrubando pilhas AA e deixando para trás um pote de uva passa.
Quem é que em sã consciência gosta de uva passa? No arroz? Inventam de por num bolo e chamar de panetone? Ah. Então é natal. Suspirou alto... José Guidelli tatuado no braço, com letras quase infantis. Carregava ao ombro uma cesta – não de natal. Básica. Contendo somente o necessário. “É só isso que vai levar?”.
- É... tá compricado.
- Pode passar na frente.
Olhei para os panetones amontoados. Diversas marcas. Gôndola de filmes a R$ 9,99, repletas de sacolas com frutas, a uva passa da senhora malinducada, barras de chocolate. De três fileiras, a do meio torta. Pop rock, Top Hits, Sessão da tarde. Tinha de tudo. Até descaso e abandono de compras por ali. Mas que bagunça!
A barriga saliente, o cabelo bronze e a mão acariciando o ventre. Agradecimento silencioso por ter dado a vez para o casal. Mão suja de graxa. Nariz escorrendo. Olhou para os apetrechos do caixa, papai Noel de chocolate. Pegou quatro. Fez uma conta mentalmente. Levava a cesta básica, um panetone e quatro estatuetas de cacau. Olhou para a barriga da esposa, que mesmo de camisetão mostrava-se presente. Pegou mais um papai Noel.
Mesmo que a criança nem veja a cor do chocolate. Era simbólico. Contou as moedas na carteira, voltou o ticket para o bolso de trás da bermuda jeans. José Guidelli abraçou a mulher e arrastaram as havaianas para a saída logo ao lado. Calor. Um senhor de chapéu brigando no caixa ao lado. Olhei para o carrinho. Para a porta já vazia.
Deixei o Bauducco de lado. Era preciso do que fosse... básico.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Ele um dia volta?
E eu nunca tive tanta certeza de que o futuro é lá fora. Que o anseio de pisar fora da linha argumenta bem com o medo de um passo em falso. Errôneo. Entre malabares e equilíbrio numa corda bamba, como quem não sabe sambar e tenta. Tenta a ponto de cansar os pés, dobrar os joelhos e clamar por... Por o quê mesmo? A vida é lá fora. No quintal de casa, na estrada que vai delineando o destino. Do rio que entrecorta e muda a paisagem. E eu nunca quis tanto. E quero. E instigo a um próximo passo. A andar em equilíbrio – ou simplesmente desequilibrar. É preciso, sabe? Fugir da rota. Andar além. E descobrir.
O que é que tem? É logo ali – avisou de antemão o viajante. E era mesmo, um casebre a moda antiga, decorado por madeira consumida por cupins. Desfigurado como quem espera a mãe que já não volta mais. A estrada chama. Aguça os sentidos, apura os ouvidos – sente ao longe? Vai passar. Mas nunca sabemos quem. Ou o quê. Mas passa. Lá vem ele, fazendo a curva. Um carro de boi e um bigodudo risonho. Pegue carona e vá.
Carrega a trouxa nas costas. Ele que de trouxa tinha só o que carregava. Levanta o braço, sacode o polegar – estaciona. “Suba rapaz! Pra onde vai?”. Pergunta difícil. E agora? Adiante, sempre. Vá em frente! Sobe no caminhão, olha para trás. Dois bois, uma vaca. Cheiro de merda. E o vilarejo deixado num passado remoto, de quem já não enxerga depois de alguns quilômetros. Fantasmagórico, abandonado. Deixou ali a vida de peão. E as memórias.
Partiu com seo João, dona Maria, Teobaldo. Pra nunca mais voltar.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Que eu não tenho muito o que dizer
Eu deveria saber me conter. Eu deveria no mínimo contentar-me com o pouco, as migalhas. Talvez um sinal de gratidão. Mas a gente sabe. É, sabemos. A teimosia sempre prevalece, o caminho errado. Seria mesmo errado? Não tenho tanta certeza. Disseram-me que é ingenuidade... Eu acredito que seja só teimosia. Uma cabeça dura insistente pela vertente mais complicada. E diversa. E divertida. Fiquei sabendo do gosto semelhante. Do humor ácido típico, parecido com o que eu costumo ter. Já ouvi gente dizer que sou outra pessoa – sempre fui a mesma, ora, pois. É questão de se identificar. E partilhar qualquer confidência besta, sob uma lua enevoada. E uma chuva rala. Quase vinte e cinco graus. Só partilhar. Reconheceram-se.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
"Deus parece às vezes se esquecer"
Era aquela coisa, eu queria me enturmar. Queria mesmo. Não sei onde vi aconchego naqueles olhos castanhos, emoldurados por cílios fartos. Não sei. Eu queria é... Conversar. Mesmo que eu fosse uma pessoa do silêncio. Abria a boca. E comia, porque haveria de comer. Porque minha mãe dizia que era necessário se alimentar.
Sentava-me torta. Longe. E sempre pensei que por trás de tanto cílio tinha uma pessoa legal. Um “oi, tudo bem?”, alguma conversa e um riso nervoso. Era absolutamente normal. E me sentia invisível. Era? Não sei. Eu só queria conversar. Em poucas tentativas frustradas – e como essa coragem apareceu não sei dizer – mais frustração se acumulava.
Daquele tipo que não se espera nada... E ao mesmo tempo tudo se espera. Eu não sei! Será que não me enxerga? Oi? Preciso acenar, levar um tropeção ou o quê? Só um diálogo. É que ultimamente tá difícil ter amigos que valham à pena, sabe. E eu sou do tipo que reconheço as pessoas pelo olho. E eu acho que você é bom. Digo, do bem. E é bom também. Mesmo que eu não te conheça.
Já tinha desistido, a solidão e o silêncio são bons... Pra mim são pares perfeitos, mesmo sem saber. A única coisa que se encaixa... Nessa vida meio medíocre. Meio mediana. Meio a meio, sabe? Aí fui andar pra lá, por outros ares e outros prédios. E reconheci teu passo à frente. E antes de entrar pela porta aberta, hesitou. Olhou pra trás, esboçou um sorriso. Eu só olhava para o meu all star. Sabe quando a gente sente, mesmo sem olhar, e sabe? É agora eu sei. Hesitei. Olhei para frente, mas já havia entrado... Será que sairia?
Só pra conversar?
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Eu morro e não vejo tudo
Aguardava pacientemente a carona para ir embora. Sol alto. Tarde aleatória durante a semana... Praticamente qualquer. O barulho ensurdecedor do trânsito até tentava tirar o foco, não fosse uma moto roncar a poucos metros de distância dali. O salto fino, rosa choque, desceu da garupa – 15 centímetros. Apoiou bem ao chão, certificando-se que sairia dali como a diva que era.
O capacete combinava com a motocicleta e o xadrez em amarelo do lado. Viera de moto-táxi. Tirou aquela redoma da cabeça soltando os longos cabelos louros até a cintura. Lisos, propaganda de xampu. Os olhos pintados com uma maquiagem em evidência, a roupa apertada evidenciando as curvas. Sobrancelhas marcadas, cílios enormes. As mulheres ao redor cochichavam. A inveja parecia corroer cada centímetro do corpo de todo sexo feminino presente.
Senti o tal sentimento alfinetar-me, sem reação, observei. Os olhares furtivos dos marmanjos não conseguiam ser discretos. Aquele olhar que a gente decifra sem precisar de alguma descrição barata. Que mal podia cogitar o que se passava pela cabeça dos fulanos – e nem queria. O salto foi tilintando em 1,80 de altura até a porta principal. Subiu as poucas escadas com uma performance digna dessas cantoras de pop que pipocam por aí. Unhas compridas, alaranjada. Perua, Barbie, como preferir.
Aproveitei a proximidade com o recinto adentrado, apurei os ouvidos. Luana. No estilo Piovani, só podia. Minha carona chegou. E os cochichos ainda sondavam a moça. O que ela tinha que as outras não tinham?
Debruçou na bancada do comercial e ditou em alto e bom tom, com um timbre amaciado:
- Escreve aí: Luana Travesti, 23 anos...
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Corre dor
Faltavam cinco itens da lista de compras e eu aguardava pacientemente na fila do açougue – dia de carne em promoção, sabe como é. Olhei de soslaio para os demais corredores, tudo estava calmo. Pela primeira vez via um supermercado calmo, com o locutor de 15 em 15 minutos bradando alguma oferta do dia. Aquela música de fundo. Rádio de supermercado é uma coisa brega, né? Uma vez ouvi dizer que isso fazia com que as pessoas ficassem mais tempo em um lugar e comprassem mais. Se dava certo ou não, eu não tinha doses suficientes de publicidade e propaganda no sangue para responder.
Começou a tocar aquela nova, do rapper que minha prima costumava idolatrar. Lil Wayne e Jay Sean – e viva o Google! – o refrão era “down down down”, e no corredor 11, de biscoitos, poderia dizer que começava um flash mob dance de uma só pessoa. Um garoto arriscava alguns passos ali, sozinho, entre bolacha passatempo e bolacha de champagne. Devia ter uns 10 anos. E dançava como ninguém – engraçado – e inovava os passos à medida que a música ficava mais agitada. A fila não andava, a senhora de cabelos brancos reclamava do preço da coxa de frango. As carnes embaladas em bandeja de isopor amarela nos observavam atentamente. Nunca acreditei muito naquele vermelho vivo das carnes embaladas. Vendiam uma imagem do que não eram: eu sabia que não eram tão saborosas quanto os açougueiros ansiavam que fossem.
Vender era preciso. Por que será que não criavam um grupo para se apresentar ali? Imagina só, show de dança, lingüiça e carne de frango. Língua de boi, coraçãozinho. Música ao vivo. Um espetáculo a parte e nenhum cliente reclamando, todos felizes cantarolando “macarena” em coro. Com direito a frangos sem cabeça incorporando a coreografia com uma desenvoltura sobrenatural. Igual aquele menino do corredor 11. Eram passos ensaiados, era a única hipótese. Um moonwalk desengonçado e uns três minutos de fila estagnada. Até que fazia sentido, sabe? Aquela frase maluca que instigava as pessoas a dançarem como se não fossem vistas. Ainda mais hoje. Não estou brincando, juro. Eu bem que poderia fazer igual àquela maluca do seriado Modern Family e pegar a gravação dos corredores de supermercados para provar que era verdade.
Que a felicidade não era inventada.
domingo, 23 de outubro de 2011
Café com leite
Daqui alguns anos me vejo realizada. Plena. Feliz. Não mais cautelosa. Não mais amedrontada por qualquer apontamento de dedo alheio. O amadurecimento ou o distanciamento faz isso com a mente: faz bem. Bem pra pele, bem pro sorriso, bem pro corpo. Pr’alma.
Talvez eu tenha montado aquele cafezinho aconchegante. Baseado no que eu vi uma vez em Cianorte, um misto de café, livros e legião urbana tocando ao fundo. Encontro de casais, fotos antigas grudadas na parede. Fotos minhas. Momentos meus. Compartilhados. Porque é a felicidade que me acontece. É o que tudo caminhava para ser: serei. O que sou. Uma lapidação melhor e maior do que hoje é incompleto.
E você vai entrar por aquela porta. Vai me cumprimentar com um aceno de cabeça, um sorriso de lado, o mesmo olhar perdido e apaixonado. E eu nunca saberei pelo quê. Pedirei para que te atendam como realmente merece. E você virá acompanhado do teu sossego, da sua falta de pretensão. Eu virarei as costas para anotar o pedido e darei o melhor sorriso que tenho guardado no peito. Que é só seu.
A porta vai se abrir, a campainha vai tocar avisando que mais alguém entrou. Junto de novo cliente, uma cortina de vento gelado, porque o clima aqui ainda não mudou: continua maluco. Às vezes quente que não me cabe o calor, e me falta o ar, a visão e o bom senso. Outras, bem frequentes, vêm acompanhadas com o que combina bem com o céu: marrom, bem gelado.
Podia ser um cappuccino. Podia ser um café tradicional. Um carioca, macchiato. Aprendi esses dias a fazer latte art. E desenhei, como uma criança que brinca com uma caixa de lápis de cor 24 cores da faber castel. E brinca escondida porque não pode brincar na frente dos outros: as aulas ainda nem começaram. Fiz um coração. Tímido, como eu era naquela época. Como ainda guardo um pouco de mim no que restou. No fundo da xícara. Daquele calor que acabou.
Faço questão de levar à mesa. Você agradece, empunha um jornal e começa a ler. Não perdeu o costume. O legião urbana ainda toca. Você levanta. Paga, despede-se e vai embora. Como se fôssemos meros conhecidos. De uma eternidade de lembranças que não conseguimos esfriar. Do café que ainda nos une ao acaso. Do tempo.
sábado, 8 de outubro de 2011
Chuva, Adele e lembranças
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Esquecido num bloquinho
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Aleatoriedades e U2
Quanto tempo demoraria mais? Pressa. Pressa. Me tira daqui? Não agüento mais ficar aqui.
Quem manda nisso sou eu, sente-se.
É um jogo, alguém deveria mandar nisso? Isso é uma armadilha. Uma arapuca para pegar codorna.
O que é isso que escorre da sua boca? Mel? E o seu cabelo? Meio comprido.
Essa barba por fazer. Cante. Me encante, por favor. Eu cansei. Você me tiraria daqui?
Olhe através do vidro, o que você vê? Me vê? Eu consigo acompanhar cada detalhe tímido. Abra sua boca, seus dentes brancos e levemente tortos. São lindos.
Sorria. Sorria, e isso basta. Para mim é o suficiente. Por favor, não pare de sorrir.
Me faça gargalhar. Cante. Você cantaria? Não pare de cantar.
Você existe.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Nomeia
Falta de
sono
Dúvida
O que era?
Pensava
Me diz? Responda!
O que és?
Sentimento
Tens nome?
Não sei
Pode me nomear?
Se eu der nome...
O quê?
Posso me apegar
E daí?
Depois você vai embora
E só de lembranças
Não é possível
Simplesmente
Continuar
Dicionário
Paixão
Intensidade
Atração, interesse
Entusiasmo
Perturbação
És meu preferido
Mas não é
Isso não significa
Mais
Mais
Mais
Adição
Intensidade
Coração?
Aproxima
Protege
Afeiçoa-se
Não! Pare!
Não se aproxime
Ou
Pode ser tarde
Para nós
Demais
É tarde
Amor
Suavidade
Delicadeza
Dedicação
A quem quer agradar
Agradável
Afinidade acontece
Sentimento
Quer saber?
Pouco importa
Você tem nome?
Se eu tenho nome?
Pouco importa
Que nome tens?
sábado, 3 de setembro de 2011
Um sábado qualquer
- Que cheiro de fome
- Vamos almoçar
- O seu pai vem pro almoço?
- Tô com vontade de comer frango
- Vamos voltar pra casa
- Vamos comprar um frango?
- Que tal comprarmos uma torta para comemorar?
- Boa ideia!
- Mas eu ainda quero o frango...
- Ah, mas a torta é mais gostosa
- É doce. Eu quero frango. Vamos comer frango.
- Estaciona o carro aqui na faixa mesmo que eu desço rápido
- Cuidado pra atravessar a rua, hein?
PÉÉÉÉÉÉÉÉ – ÔLOCO MEU!
- Isso realmente tinha que acontecer? No dia do seu aniversário?
- Foi por pouco
- Eu tô tremendo até agora.
- Motociclista filho da puta!
