terça-feira, 30 de agosto de 2011

Era inexistente

O sentimento inexistia, contrapondo a vontade evidente. Tilintava as garrafas em brindes e brindes e só uma coisa desejava. Chegou. As músicas eram bregas o suficiente, exatamente como gostava. Lançou-lhe um olhar. De leve. Abraçou-o e aceitou a bebida que oferecera. Goles e mais goles de esquecimento, o pensamento já vagava distante dali. O papo fluía vez ou outra. Encontros e desencontros com estranhos e reconhecíveis misturados no ambiente fracamente iluminado. Saiu. Sentiu-se seguida. A sombra, os passos diferenciados das notas musicais insistentes aos dançarinos ousados na pista. Tomou mais um gole. Hesitou à porta, evitando a área de fumantes. Virou o copo. Pensou em voltar ao bar e buscar mais uma long neck, mas aguardou. Sabia que a sombra tinha nome. Nome, sobrenome e intenções.

Puxou-lhe pela cintura, fazendo às escuras o que não era permitido fazer frente aos olhares curiosos. De conhecidos. Intrometidos. Entre sussurros, confissões aos ouvidos, já não se importavam mais com a escadaria molhada, com a precipitação atmosférica. Só era possível ouvir a respiração de ambos. Sentia-se a garoa aderindo à pele, aos suspiros e às juras que valeriam somente àquela noite.

- A gente se uniu muito rápido. Como você explica isso?

- Alguma sugestão? – perguntou-lhe ao pé do ouvido – Destino?

O tempo de cinderela estava ao fim. As juras ficaram atadas ao vidro embaçado, ao soar da última canção. Olhou fixamente os olhos miúdos, prevendo o que escreveria a respeito daquele sorriso. E as covinhas? O charme infantil que mais gostava. Segurou-lhe o rosto com as duas mãos, prometendo sair dali como uma desconhecida. Prometendo a si mesma que jamais esqueceria. Calou-se. Fixou os olhos e selou o compromisso com um último beijo.

Voltou à realidade, sabendo que era impossível. E o impossível se desfez. A carruagem agora era abóbora, travando significado com a noite de halloween. A madrugada fria, mais alguns goles. Entrou com um meio sorriso que sabia bem. Era segredo de Estado. Peça do destino desavisado. Partiu, deixando-se ouvir o som do salto alto batucando o piso de madeira. Deixando a sombra para trás.

domingo, 28 de agosto de 2011

Tela

Eu gosto de traços definitivos como se a realidade me escapasse por entre as mãos

Gosto de sentir a brisa acariciando meus cílios, mantendo meus olhos semicerrados

Gosto de misturar as cores e perceber uma leve inclinação na coloração, o sombreamento necessário

E pegar a cor pura e vê-la transformar-se em obra

Tida pela minha mão, de outrem, das cores provenientes de uma só

Então temos uma combinação infinita de sensações, significados e justificativas

Que nada justificam o que é ficcional

De traços nem sempre definitivos, de borrões ao acaso transformados em imagens

Tão próximo que não possa ver

Precisando da distância necessária para que possa se afirmar

Ouvindo Adele.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Resta um

E é como se eu me olhasse no espelho. Daqueles olhos profundos amendoados, sob a luz estarrecida da avenida. Reconheci tantas delas naqueles sorrisos. Tive vontade de beijar-me os próprios lábios. Os cabelos pelo ombro, iluminados pela poesia da madrugada. Ao céu conciso, estrelas. Refletindo tantos olhos à meia-noite de um dia qualquer. De mudanças, afins e semelhantes.

Saboreava cada palavra proferida como se fosse um discurso que passara tanto tempo para produzir, parindo literatura prematura. Colhia as sílabas, formava frases e transmitia sensações como se fosse tradução do que é real. Aos olhos contrastando com a pele parda. No toque da palidez. Que refletia a lua e incendiava a garganta.

Queria falar. Falar-lhe tanto que não pretendia conter. Que prefiro não dizer. O que há de se afirmar? Das perguntas que não fiz, das respostas que vieram de maneira afável. Debruçando sobre a doçura do mel escorrendo por entre as veias fartas, do coração já entupido pela boca que não se cala, da rigidez nos entraves do que se é desconhecido. Não sabia.

Conhecia aqueles gestos, o pedaço de tecido com linhas que conduziam ao olhar no fim da rua. Que nada tinha. Imensidão moldada em teorias estarrecidas pelo sopro. Pelo tropeço. Arfava de modo que lhe fazia escorrer pelas têmporas, sinônimos das pretensões tardias. Vagando por entre estados físicos da mente enevoados pela ampulheta arrematada com desdém. Algemando os braços que uniam as memórias fervorosamente como uma só vida. De começo, meio e além.

Ainda refletia com semelhança os olhares reconhecendo o cinza das manhãs de maio. Gêmeos atados ao que se predestinava num destino curto. Os pés tocando a terra, avermelhando-se com tom de sangue que vazava por entre as raízes: fixava-se. O olhar nos dedos nus. Do par descalço afundando-se no que vertiginava os planos, ações, sem saber. Carne, água, unha, terra, ventre. Paria e permanecia, como abortos instantâneos de quem não cobiçava ficar.

A vontade aflorava contrapondo as indecisões permanentes. Tocava a água com fervor, ansiando mergulhar num desejo já asfixiado por normas, parênteses e travessões. Inquietantes vozes no vazio, no crânio, de suspiros formando imagens por entre os oculares. Ossos arremessados sem ofícios no vão do cerne, arrematando razões, esmagando penalidades crucificadas em gelo. Derretia medos, proferia escárnios e temerosamente ansiava dissimulação.

Morria, renascia, tal qual a madrugada. De globos transtornados pairando entre as órbitas, fixando-se e arriscando-se aquém. Dançando por entre a lua, a vergonha e as grades. Nasalado nas expressões mórbidas que já não saltavam à língua, não tangiam os dentes, não pairavam a altura do peito. Inaudível, mordaz, sufocando o choro de quem se fizera vítima de atassalhar o útero e bradar a ardência de nascer trancafiado entre raízes.

Imagem retirada do deviantart

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Hora de dizer boa noite

Juntando os poucos cacos restantes que encobriam o chão de fragmentos translúcidos daquela substância que nada mais significava para mim. Poderia ser um copo de vodka, já sem o conteúdo prévio dentro. Poderia ser até mesmo meu coração estilhaçado pelo tempo, se o órgão não tivesse saído de férias.

Não procurei decifrar o enigma de cacos, os holofotes de minha atenção foram parar no canto obscuro do bar, onde a iluminação era porcamente estabelecida pelos reflexos das luzes que vinham do palco. Algum desafinado arriscava-se nos Beatles, mergulhado na melodia que provavelmente o tirara dessa dimensão. Ninguém mais se importava pela qualidade musical do ambiente, tortos do jeito que estavam. E justamente aquela figura me chamou tanto a atenção.

Chapéu encobrindo meio rosto, vestido com ar de mistério, um sobretudo surrado e uma dose de uísque nas mãos. Os dedos tremelicavam fortemente ao redor do copo levemente trincado, enquanto o olhar buscava alguma exclamação no ambiente sujo que frequentava. Entretida pela música e ansiando alguma movimentação do anônimo indecifrável, acompanhava o refrão “You’ll let me hold your hand, now let me hold your hand, I wanna hold your hand”, e me senti perfeitamente em uma cena distinta daqueles filmes meio faroestes, onde tudo acontece em bares.

Recém chegada na metrópole, queria conhecer ao menos um pouco do lugar onde passaria belo período da minha vida – se não ela inteira. Ouvi os vizinhos comentarem sobre aquela casa com jeito de abandonada próximo ao boteco da esquina. Se a música era boa ou não, aquela era a válvula de escape do meu sábado solitário e trancafiado em um quarto assistindo algum filme na televisão. Minha visão já estava levemente alterada pelos efeitos que o álcool produzira nos meus neurônios. A pouca iluminação borrava as sombras nas mesas de sinuca, implorando por canecas que o fizessem esquecer a semana que já tinha passado. Era um ritual de comemoração pelo que se via. E o indivíduo na penumbra não me parecia alguém com ar de satisfação pela semana que disse adeus, e sim alguém que buscava por mais uma semana entretido em alguma história digna de acompanhar, mesmo com as alterações provenientes do etanol na corrente sanguínea.

O indicador do homem rastreava o sinal trincado do copo ainda abordado pela dose envelhecida do líquido. Parecia-me um dos bem baratos, o uísque. Quando bateu frente ao declive do vidro no recipiente, emanou uma gota de tom escuro, um literal vermelho sangue, que descia embriagada até o mergulho de despedida. As hemácias desmanchando-se naquele amarelo ouro que tilintava e refletia as faíscas luminosas do outro lado do salão. Em um rápido movimento de braço, a sombra engoliu toda a mistura de uma só vez. Levantou o chapéu e pude analisar melhor o perfil da minha curiosidade, que no exato momento de decifração resolvera fitar-me com aqueles olhos fundos e o nariz levemente adunco. Não sabia dizer a altura, a cor dos cabelos ou mesmo da íris. Mas notei que a barba era um tanto pra lá do por fazer.

Levantou-se e caminhou em minha direção. Senti as mãos gelarem, os pés tamborilarem o assoalho riscado. Fitamo-nos por um instante. Acompanhamos um refrão de blues. Sabíamos.